jun 09

A distribuição de conversores de TV Digital não se trata, como pode parecer, de alguma benesse, mas de uma necessidade econômica de radiodifusores das operadoras de telefonia celular

Cerca de 14 milhões de conversores de TV digital serão distribuídos gratuitamente para beneficiários de programas de transferência de renda (como o Bolsa Família), que provavelmente ainda não possuem aparelhos de TV capazes de captar o sinal digital.

Não se trata, como pode parecer, de alguma benesse, mas de uma necessidade econômica de radiodifusores (desejosos de encerrar suas transmissões analógicas) e, principalmente, das operadoras de telefonia celular (que precisam de parte do espectro atualmente alocado para o UHF para vender serviços de 4G). E para que o sinal analógico possa ser desligado, o Governo Federal definiu que mais de 93% dos brasileiros devem estar aptos a captar o sinal digital. Daí a necessidade de distribuir os conversores para as camadas mais pobres.

O governo tem argumentado que há um ganho nesse processo, na medida em que todos os conversores terão embarcados o middleware brasileiro Ginga. Ele funciona como uma espécie de sistema operacional, onde aplicativos são instalados e utilizados nas TVs. Seria uma forma de garantir a tal interatividade prevista na implantação da TV aberta digital, mas que até hoje continua sendo mera esperança.

Mas será mesmo que ter o Ginga nos conversores resolve o problema? Na verdade, a definição do modelo de conversor foi fruto de uma intensa batalha dentro do Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (Gired). O Grupo era constituído pela Anatel e pelas empresas de telefonia e de radiodifusão. Ao final, saiu vencedora a posição de radiodifusores e operadoras de telefonia celular, a despeito da versão que o governo se esforça em contar.

As teles terão que pagar a conta desses conversores (para poderem usar o espectro de 4G), mas não estavam interessadas em gastar muito. Os radiodifusores sempre deixaram claro que veem a interatividade como um inimigo capaz de lhe impor evasão de audiência e risco de perda de anunciantes. Quanto mais unidirecional for a TV, maior controle o radiodifusor tem da audiência. Foi assim que a interatividade acabou “esquecida” na implantação da TV digital, em 2006, e ocorre agora da mesma forma.

Os defensores da proposta do Gired argumentam que há apenas “pequenos problemas” a serem resolvidos. Mas, quais seriam, então, esses pequenos problemas?

Em primeiro lugar, os conversores não virão com um modem para acesso à internet instalado e tampouco com conexão wi-fi. Ou seja, o beneficiário do Bolsa Família terá que comprar um modem 3G/4G das operadoras de telefonia celular e contratar um plano de internet, ou pagar por um serviço de banda larga fixo. A Pesquisa de Mídia Brasileira de 2015, da Secretária de Comunicação da Presidência da República, mostra que 78% da população brasileira que recebe menos de 1 salário mínimo não tem acessoà internet. Imaginar que essa parcela da população passará a assinar os serviços de internet apenas para conectar a TV Digital é de uma ingenuidade sem tamanho. Ainda mais quando o Plano Nacional de Banda Larga naufraga no país.

Mas, não é apenas esse o problema. O cidadão que conseguir transpor essa evidente barreira de renda se verá diante do fato de que apenas aplicativos autorizados pelas emissoras poderão rodar neste conversor. Trata-se, portanto, de uma interatividade confinada em ambiente totalmente controlado pelas emissoras de televisão. Você pensou em internet? Esqueça!

O que estamos assistindo agora é mais um capítulo da implantação da TV digital aberta no país sob controle total das principais redes de televisão, particularmente a Globo. Foram eles que garantiram que não haveria multiprogramação e operador de rede (e com isso sabotaram uma das principais vantagens da TV digital, que é a compressão do sinal para entrada de novas emissoras). Foram eles que evitaram a interatividade com medo de terem que disputar a audiência também com novos aplicativos. E são eles agora que garantem um simulacro de interatividade, sob os olhares complacentes do Governo Federal. Diga-se de passagem, os fabricantes de aparelhos de TV também ficaram muito felizes por não terem concorrentes para os aplicativos de suas smarTVs.

Mesmo propostas, como o projeto “Brasil 4D”, desenvolvido pela Empresa Brasil de Comunicação, estão em xeque. O projeto oferece serviços de governo eletrônico pela TV Digital. No entanto, sem uma interatividade plena, possibilidades como a marcação de consultas no SUS e o acesso a benefícios do INSS não serão possíveis. Restará a possibilidade de acesso a informações gerais sobre programas de governo, que já podem ser acessadas pela INTERNET e em aplicativos móveis, sem uma interação que beneficie os cidadãos.

Infelizmente, a despeito da propaganda que você terá contato, a distribuição destes conversores não passa de mais uma chance perdida para a efetiva democratização da TV aberta no Brasil. Não há nada o que comemorar.

* Gésio Passos e Gustavo Gindre são integrantes do Intervozes.

Fonte: FNDC

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jun 09

Ginga: Tecnologia nacional para TV digital, Ginga C, é aprovada e vai para os conversores do Bolsa Família

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O Fórum de TV digital – entidade que reúne os radiodifusores, os fabricantes de aparelhos e o mundo acadêmico – aprovou hoje, 8, por maioria de votos, as especificações técnicas do Ginga C, o middleware nacional que permite a interatividade da TV digital. Agora, essas especificações serão colocadas em consulta pública pela ABNT, por 60 dias, para depois serem incorporadas aos conversores de TV a serem distribuídos às famílias do Bolsa Família

As especificações técnicas do Ginga C, o software nacional que permite a interatividade da TV digital, foram hoje,8, aprovadas pelo Forum da TV digita, entidade que reúne os radiodifusores, os fabricantes de aparelhos de recepção e de transmissão e a comunidade acadêmica. Essas especificações vão passar, agora, por consulta pública de 60 dias da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas -, mas a avaliação é de que haverá poucas mudanças no padrão. Com esta definição, a EAD (empresa operacional da transição analógica /digital) poderá lançar a licitação no mercado para cotar o preço dos 14 milhões de conversores que serão distribuídos aos integrantes do Bolsa Família.

Fonte: FNDC

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jun 09

TV Digital: Fórum da TV digital define hoje (8/6) a especificação técnica do software para que 14 milhões de conversores sejam fabricados e entregues às famílias mais pobres

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A indústria de televisores no país – em sua maioria, estrangeira – tem colocado uma série de empecilhos para o uso da tecnologia nacional do software para a TV digital, o nosso Ginga padrão C, que foi adotado pelo Gired (comitê de implantação da TV digital no país) há duas semanas, e cuja adoção foi defendida pelo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini.

Pois hoje, 3/6, em reunião do comitê técnico do Forum Brasileiro de TV Digital (que congrega governo, radiodifusores e fabricantes), o representante de uma dessas marcas fez ameaças contra a tecnologia nacional, dizendo, inclusive, que vai “melar” o processo. O fórum vai deliberar sobre a especificação técnica do Ginga C no próximo dia 8 de junho, em Brasília. Este prazo é exíguo porque as operadoras de telecom, que vão comprar os 14 milhões de conversores de TV analógica para digital para serem distribuídos às famílias do Bolsa-Família, precisam que os fabricantes forneçam os preços dessas caixinhas que vão ser adquiridas e se programem para viabilizá-las.

O destempero de alguns executivos obviamente está vinculado a este enorme mercado que será criado. Há pelo menos 10 fabricantes cadastrados pelo Gired com intenção de fabricar os conversores definidos pelo governo. Quem não quer um mercado de 14 milhões de caixinhas, a um preço de pelo menos US$ 36 por unidade? O problema principal é que, devido à disputa por mercado, certos executivos querem usar sua força política para diminuir a desvantagem de não ter acreditado na adoção da tecnologia nacional.

O Ministério das Comunicações vê esta disputa como apenas mais uma pressão devido ao enorme mercado que será gerado. Fontes do ministério asseguram que a decisão sobre a interatividade e o Ginga C, que irá permitir a inclusão social da TV digital brasileira, não é uma posição setorial, mas uma posição de governo.

Fonte: FNDC

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