{"id":3397,"date":"2016-01-30T10:53:17","date_gmt":"2016-01-30T13:53:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gingadf.com.br\/blogGinga\/?p=3397"},"modified":"2016-01-30T10:54:11","modified_gmt":"2016-01-30T13:54:11","slug":"tv-digital-a-morte-do-ginga-na-tv-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gingadf.com.br\/blogGinga\/tv-digital-a-morte-do-ginga-na-tv-digital\/","title":{"rendered":"TV Digital: A morte do Ginga na TV digital"},"content":{"rendered":"<p>Software brasileiro que permite interatividade ficar\u00e1 de fora dos conversores distribu\u00eddos aos benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia na maior parte do pa\u00eds<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que o senso comum indica, o sucesso de uma tecnologia n\u00e3o est\u00e1 ligado apenas a quest\u00f5es meramente t\u00e9cnicas. E mesmo a defini\u00e7\u00e3o do que s\u00e3o os aspectos t\u00e9cnicos est\u00e1 inserida em um contexto mais amplo, que envolve quest\u00f5es sociais, culturais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Ao fim e ao cabo, \u00e9 o conjunto dessas intera\u00e7\u00f5es que triunfa ou fracassa.<\/p>\n<p>Esta breve reflex\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para justificar porque o middleware Ginga (uma esp\u00e9cie de sistema operacional para TVs interativas), desenvolvido no Brasil e com c\u00f3digo-fonte aberto, parece ter fracassado de maneira definitiva. Caso tivesse obtido sucesso, o Brasil teria n\u00e3o apenas uma tecnologia capaz de converter a TV em um instrumento de inclus\u00e3o digital como tamb\u00e9m uma poderosa alavanca para mover a incipiente produ\u00e7\u00e3o brasileira de softwares.<\/p>\n<p>Em 2006, o Decreto 5.820, que definiu a ado\u00e7\u00e3o de um suposto sistema \u201cnipo-brasileiro\u201d para a digitaliza\u00e7\u00e3o de nossa TV aberta, na pr\u00e1tica adotou um pacote tecnol\u00f3gico japon\u00eas (conhecido pela sigla ISDB-T) combinado com o uso do middleware (software) brasileiro Ginga, respons\u00e1vel pela interatividade do novo modelo. Mas, enquanto a ado\u00e7\u00e3o do ISDB-T ocorreu como previsto, a inclus\u00e3o do Ginga e dos mecanismos para garantir a interatividade no sistema digital acabou sendo postergada.<\/p>\n<p>Recentemente, como mostrou este blog na \u00e9poca, o grupo criado por representantes do governo e do empresariado para acompanhar o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o da TV no Brasil (chamado GIRED &#8211; Grupo de Implanta\u00e7\u00e3o do Processo de Redistribui\u00e7\u00e3o e Digitaliza\u00e7\u00e3o de Canais de TV e RTV) decidiu que os conversores que ser\u00e3o distribu\u00eddos aos benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia n\u00e3o vir\u00e3o com modems.<\/p>\n<p>A interatividade, como se sabe, precisa de um canal de retorno do usu\u00e1rio, e o caminho para isso \u00e9 a internet. Corretamente, o governo tomou a decis\u00e3o de distribuir 14 milh\u00f5es de conversores para os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia. Trata de um usu\u00e1rio de baixa renda, que provavelmente n\u00e3o tem computador em casa, e que poderia, inclusive, usar a TV como ferramenta de inclus\u00e3o digital. Por\u00e9m, sem o modem no conversor, caso este cidad\u00e3o consiga ter acesso a um provedor de banda larga para conectar sua TV interativa, agora tamb\u00e9m ter\u00e1 que comprar e instalar um modem em sua TV.<\/p>\n<p>Vale lembrar que, para o cidad\u00e3o que possui um computador e acesso \u00e0 Internet, a TV interativa se torna pouco ou nada necess\u00e1ria. A interatividade na TV faz muito mais sentido para o cidad\u00e3o de baixa renda. Mas, sem uma conex\u00e3o de banda larga que possa tornar a TV interativa de verdade e sem o modem no conversor, esse usu\u00e1rio fica limitado apenas a receber informa\u00e7\u00f5es, sem poder interagir de fato.<\/p>\n<p>Agora, em 2016, n\u00e3o satisfeitos com a distribui\u00e7\u00e3o de conversores sem modem, os membros do GIRED acabam de aprovar uma nova resolu\u00e7\u00e3o, motivada pelo atraso no processo de desligamento da TV anal\u00f3gica, determinando que apenas os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia que vivem nos 1000 maiores munic\u00edpios brasileiros receber\u00e3o conversores com Ginga. Ou seja, a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, aquela que mora nos mais de 4.500 munic\u00edpios restantes, receber\u00e1 somente um conversor de sinal da programa\u00e7\u00e3o digital, sem qualquer software que permita a interatividade \u2013 mantendo a televis\u00e3o exatamente como ela sempre foi, apenas com uma melhoria na qualidade do sinal.<\/p>\n<p><strong>De quem \u00e9 a culpa<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm parte, a fal\u00eancia do Ginga como tecnologia brasileira para a interatividade na TV digital se deve \u00e0 falta de compet\u00eancia do Estado brasileiro para implementar uma pol\u00edtica industrial que viabilizasse a sua ado\u00e7\u00e3o. O assunto sempre ficou nas m\u00e3os de pessoas sem a experi\u00eancia e o poder necess\u00e1rios para articular o conjunto de inst\u00e2ncias dentro da m\u00e1quina estatal para responder a um desafio dessa magnitude.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o foi apenas a falta de expertise dos gestores envolvidos que determinou a morte do Ginga. Na verdade, o middleware brasileiro foi apanhado por uma tempestade perfeita, formada por um conjunto de fatores.<\/p>\n<p>Um deles foi a recusa dos radiodifusores em adotar a interatividade na TV aberta. A publicidade de lan\u00e7amento do Ginga previa sua ado\u00e7\u00e3o como ferramenta de interatividade colada \u00e0 programa\u00e7\u00e3o de TV. Assim, o espectador poderia clicar num produto anunciado e fazer a compra online ou, por exemplo, ter acesso a estat\u00edsticas de uma partida de futebol.<\/p>\n<p>Mas para os radiodifusores, capitaneados pela Globo, a interatividade sempre foi associada ao aumento de custos e, principalmente, \u00e0 evas\u00e3o de audi\u00eancia. Com a interatividade, o espectador poderia ter acesso a outros conte\u00fados e se afastar da programa\u00e7\u00e3o normal das emissoras, diminuindo sua audi\u00eancia e, portanto, o faturamento em publicidade. Assim, com seu enorme poder pol\u00edtico junto ao governo, os radiodifusores retardaram ao m\u00e1ximo a ado\u00e7\u00e3o do Ginga no sistema digital e a TV interativa perdeu mais um est\u00edmulo para a sua ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os fabricantes de aparelhos de TV tamb\u00e9m n\u00e3o viam com bons olhos o software brasileiro. Mas, ao contr\u00e1rio dos radiodifusores, o que os fabricantes de TVs querem \u00e9 implantar a interatividade, s\u00f3 que por meio de aparelhos que ficaram conhecidos como smart TVs. Ou seja, querem vender a interatividade para os consumidores, mas n\u00e3o por meio de aparelhos de TV que tenham um software de c\u00f3digo-fonte aberto instalado. Para empresas como Samsung, LG e Sony, a TV interativa s\u00f3 faz sentido se for controlada por elas pr\u00f3prias, atrav\u00e9s de seus pr\u00f3prios sistemas operacionais, que definam quais aplicativos de interatividade podem ou n\u00e3o ser instalados. Para essas empresas, as TVs interativas s\u00e3o uma nova fonte de recursos, que o Ginga poderia desestabilizar.<\/p>\n<p>Por conta disso, depois de atender a sucessivos pedidos dos fabricantes para adiar a ado\u00e7\u00e3o do Ginga nessas TVs, o governo definiu, somente em 2013, que 75% dos aparelhos fabricados no Brasil teriam que vir com o Ginga instalado, dispensando a necessidade do uso de conversores. At\u00e9 o ano passado, 10% dos aparelhos fabricados seguiram dispensados dessa obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra dificuldade enfrentada pelo Ginga foi a pequena quantidade de aplicativos desenvolvidos para o sistema. Todos sabemos que, para al\u00e9m das caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas, \u00e9 a quantidade e a qualidade de aplicativos que determina o sucesso de um sistema operacional. Por\u00e9m, passados quase dez anos do Decreto presidencial que introduziu a TV digital aberta no Brasil, o Ginga teve apenas a experi\u00eancia-piloto do \u201cBrasil 4D\u201d, que se destinava a prover acesso a informa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e outros temas de utilidade p\u00fablica por meio dos conversores da TV digital. Foi o projeto do Brasil 4D que garantiu a inclus\u00e3o, no planejamento do governo, da entrega dos conversores aos benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia, por meio do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social. Por\u00e9m, como dito, apenas uma parte deles agora poder\u00e1 usufruir do sistema.<\/p>\n<p>Por fim, caso quisesse, o governo poderia ter definido uma pol\u00edtica de digitaliza\u00e7\u00e3o para a TV a cabo que tamb\u00e9m inclu\u00edsse o Ginga. Essa iniciativa teria duas vantagens. Primeiro, a implanta\u00e7\u00e3o do Ginga come\u00e7aria pelos consumidores de maior renda, como em geral acontece com as tecnologias bem-sucedidas. S\u00e3o esses usu\u00e1rios que est\u00e3o dispostos a pagar mais caro pelo acesso \u00e0s novas tecnologias e que come\u00e7am a criar a escala necess\u00e1ria para o seu barateamento. Em segundo lugar, opera\u00e7\u00f5es de TV a cabo j\u00e1 possuem naturalmente o canal de retorno necess\u00e1rio para a interatividade e seria poss\u00edvel iniciar a produ\u00e7\u00e3o de aplicativos realmente interativos. Por\u00e9m, a op\u00e7\u00e3o do governo foi prever o uso do Ginga apenas na TV aberta.<\/p>\n<p><strong>Outras limita\u00e7\u00f5es \u00e0 TV interativa<br \/>\n<\/strong><br \/>\nUma limita\u00e7\u00e3o da TV interativa, que vai al\u00e9m do Ginga, \u00e9 seu car\u00e1ter de tela coletiva, em geral para toda a fam\u00edlia, colocada de forma privilegiada nas salas das resid\u00eancias. Ao contr\u00e1rio de PCs, notebooks, tablets e smartphones, que s\u00e3o utilizados por um \u00fanico usu\u00e1rio, as TVs interativas n\u00e3o permitem uma condi\u00e7\u00e3o de interatividade com privacidade. Assim, aplicativos como banco eletr\u00f4nico e redes sociais, que chegaram a ser pensados para as TVs interativas, teriam enormes dificuldades de serem adotados.<\/p>\n<p>Talvez por isso, mesmo nas modernas smart TVs, a interatividade acabou restrita ao consumo de aplicativos de v\u00eddeo por demanda, como a Netflix. E, embora haja uma quantidade razo\u00e1vel de outros aplicativos que podem ser instalados nas TVs, sua utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel, seja no Brasil ou em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Por conta desse conjunto de fatores, \u00e9 poss\u00edvel concluir que a janela de oportunidade para a ado\u00e7\u00e3o do Ginga na TV aberta brasileira j\u00e1 est\u00e1 fechada. Os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para reabri-la seriam politicamente enormes e h\u00e1 que se questionar se ainda s\u00e3o v\u00e1lidos diante do necess\u00e1rio esfor\u00e7o para garantir a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 Internet.<\/p>\n<p>Infelizmente, parece ser for\u00e7oso reconhecer que a TV aberta no Brasil, ap\u00f3s digitalizada, seguir\u00e1 sendo a mesma que foi ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Os mesmos poucos canais, com a mesma baix\u00edssima qualidade de programa\u00e7\u00e3o e sem interatividade. Caber\u00e1 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o se contentar com as mesmas imagens de sempre, s\u00f3 que em alta defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte: FNDC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Software brasileiro que permite interatividade ficar\u00e1 de fora dos conversores distribu\u00eddos aos benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia na maior parte do pa\u00eds Ao contr\u00e1rio do que o senso comum indica, o sucesso de uma tecnologia n\u00e3o est\u00e1 ligado apenas a quest\u00f5es meramente t\u00e9cnicas. 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