{"id":1066,"date":"2010-06-16T15:00:57","date_gmt":"2010-06-16T18:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gingadf.com\/blogGinga\/?p=1066"},"modified":"2010-06-16T15:04:42","modified_gmt":"2010-06-16T18:04:42","slug":"tv-digital-brasileira-e-tambem-uma-politica-abrindo-fronteiras-entrevista-com-juliano-mauricio-de-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gingadf.com.br\/blogGinga\/tv-digital-brasileira-e-tambem-uma-politica-abrindo-fronteiras-entrevista-com-juliano-mauricio-de-carvalho\/","title":{"rendered":"TV digital brasileira \u00e9 tamb\u00e9m uma pol\u00edtica abrindo fronteiras: Entrevista com Juliano Maur\u00edcio de Carvalho"},"content":{"rendered":"<p><em><em>A televis\u00e3o digital \u00e9 muito mais do que mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica ou ganho em  imagem. Trata-se de um novo referencial que proporcionar\u00e1 a mobilidade,  portabilidade, mas, especialmente, novos processos na cadeia produtiva  audiovisual, como o modelo de neg\u00f3cios, investimentos, parcerias nacionais e &#8211;  rompendo divisas &#8211; internacionais. <\/em><\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em>Atualmente, n\u00e3o s\u00f3 o Brasil, mas todos os pa\u00edses que vivem a  digitaliza\u00e7\u00e3o da TV, enfrentam a quest\u00e3o de como resolver a interatividade e a  converg\u00eancia com as demais plataformas. Uma nova cadeia produtiva audiovisual se  organiza e novos realizadores poder\u00e3o definir melhor &#8220;a cara do Brasil&#8221; para o  mundo.<\/em><\/p>\n<p>Para ampliar as reflex\u00f5es sobre esse setor, entrevistamos Juliano Maur\u00edcio de  Carvalho, coordenador do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Televis\u00e3o Digital:  Informa\u00e7\u00e3o e Conhecimento da Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita  Filho (Unesp) e conselheiro do FNDC. Com esta entrevista, o e-F\u00f3rum inicia uma  s\u00e9rie de depoimentos sobre o novo cen\u00e1rio das comunica\u00e7\u00f5es, recapitulando  conceitos e destacando abordagens.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Frente \u00e0s \u00faltimas mudan\u00e7as nas comunica\u00e7\u00f5es, o que  representa a TV digital?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Com a TV digital ocorrem, basicamente, duas  mudan\u00e7as. Uma delas \u00e9 a de tecnologia, que passa da anal\u00f3gica, com um tipo de  recep\u00e7\u00e3o e de transmiss\u00e3o de sinais, para a tecnologia digital. A segunda  mudan\u00e7a, decorrente desse processo de digitaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o na maneira  como ser\u00e1 produzida a televis\u00e3o, e tamb\u00e9m na forma como ela ser\u00e1  recepcionada.<\/p>\n<p>A nova forma de produ\u00e7\u00e3o inclui novas alternativas de cen\u00e1rio, de captura, de  mudan\u00e7a de roteiro, de organiza\u00e7\u00e3o da grade, de demanda de televis\u00e3o, e uma  mudan\u00e7a grande na forma de receber, como, por exemplo, com a introdu\u00e7\u00e3o da  interatividade.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, os aspectos que de fato significam essa troca de tecnologias s\u00e3o  a transfer\u00eancia de uma transmiss\u00e3o [anal\u00f3gica] que sofre interfer\u00eancia [sombra,  chuvisco] para uma tecnologia digital onde voc\u00ea n\u00e3o dever\u00e1 ter interfer\u00eancia. A  captura e o processo de transmiss\u00e3o de conte\u00fado em alta defini\u00e7\u00e3o, por exemplo,  \u00e9 muito superior. Enquanto no padr\u00e3o anal\u00f3gico alcan\u00e7avam no m\u00e1ximo, e raras  vezes, 525 linhas de defini\u00e7\u00e3o de imagem, no padr\u00e3o digital trabalha com 480  linhas em padr\u00e3o standard, 720 linhas em HD [high definition, ou alta  defini\u00e7\u00e3o], e 1080 em Full HD [Alta defini\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, 1920 pixels de resolu\u00e7\u00e3o  horizontal por 1080 linhas de resolu\u00e7\u00e3o vertical. [Pixel \u00e9.um ponto que forma a  imagem digital &#8211; milhares de pixels formam a imagem inteira.<\/p>\n<p>N\u00f3s vamos viver tamb\u00e9m, do ponto de vista tecnol\u00f3gico, uma mudan\u00e7a na  multiplexagem [capacidade para transmitir sobre um s\u00f3 suporte f\u00edsico, de  velocidade elevada, dados que prov\u00eam de v\u00e1rios pares de emissores e receptores].<\/p>\n<p>Com a melhor utiliza\u00e7\u00e3o do espectro de frequ\u00eancias, gra\u00e7as \u00e0 compress\u00e3o dos  codec de televis\u00e3o [tipo de um \u201cint\u00e9rprete poliglota\u201d capaz de traduzir v\u00e1rios  &#8220;idiomas&#8221; diferentes para o seu receptor], um canal de 6 MHz pode ser  transmitido, por exemplo, em at\u00e9 4 canais, se for em padr\u00e3o standard [menor  resolu\u00e7\u00e3o de imagens], at\u00e9 2 canais em HD, ou 1 em Full HD. Isso proporciona uma  grande qualidade de imagem que, ali\u00e1s, \u00e9 a grande propaganda dos diretores das  empresas (radiodifusoras).<\/p>\n<p>Outras duas caracter\u00edsticas dessa mudan\u00e7a, muito importantes do ponto de  vista tecnol\u00f3gico, s\u00e3o a mobilidade e a portabilidade. O sistema digital permite  a recep\u00e7\u00e3o do sinal em movimento. Ele conta com transmiss\u00f5es dedicadas aos  dispositivos port\u00e1teis. Por exemplo, um canal , na transmiss\u00e3o digital pelo  padr\u00e3o nipo-brasileiro [ISDB-T], j\u00e1 \u00e9 preparado para ter recep\u00e7\u00e3o direta no  celular. Isso assegura a portabilidade e a mobilidade, que \u00e9 a possibilidade de  ter a televis\u00e3o em movimento, em qualquer local, sem haver quebra de sinal.<\/p>\n<p>E o \u00faltimo aspecto dessa caracter\u00edstica tecnol\u00f3gica \u00e9 a possibilidade da  interatividade. Ou seja, voc\u00ea pode rodar um aplicativo multim\u00eddia, voc\u00ea tem a  condi\u00e7\u00e3o de oferecer servi\u00e7os por meio de televis\u00e3o. Claro que isso depende de  dois aspectos. Um, \u00e9 a grande novidade no sistema brasileiro, que \u00e9 o Ginga, o  middleware desenvolvido no Brasil; outro \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do canal de retorno  [necess\u00e1rio para haver a interatividade], que \u00e9 uma outra discuss\u00e3o grande. Se  contemplarmos esses dois aspectos, n\u00f3s podemos ter um encaminhamento muito  positivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interatividade.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; O Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) foi criado sob  muitas dificuldades e cr\u00edticas. Como pode ser avaliada a sua cria\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o  atual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211; <\/strong>Uma discuss\u00e3o foi iniciada no Brasil j\u00e1 no final  do governo Fernando Henrique Cardoso, quando o pa\u00eds flertava com a possibilidade  do padr\u00e3o norte-americano de TV digital [Adventure Television Systems Committee  &#8211; ATSC]. Depois, num segundo momento, no governo Lula, houve a defini\u00e7\u00e3o de um  Conselho Consultivo, que apontava para a perspectiva de um grande envolvimento  da sociedade no processo. Isso resultou, no final de 2006, no Decreto  5.820\/2006, que trata da escolha do padr\u00e3o japon\u00eas [ISDB &#8211; Integrated Services  Digital Broadcasting] para o Pa\u00eds [ISDB-T, ou Servi\u00e7o Integrado de Transmiss\u00e3o  Digital Terrestre].<\/p>\n<p>Agora, o que n\u00f3s temos do padr\u00e3o japon\u00eas (original) \u00e9 somente a modula\u00e7\u00e3o. A  ele adaptamos um middleware brasileiro, o Ginga, que \u00e9 o software &#8211; aquilo que  faz o pacote de dados que vem da emissora \u201cconversar\u201d com o receptor de  televis\u00e3o. Ou seja, \u00e9 uma ferramenta fundamental para fazer os aplicativos  rodarem, para que haja interatividade e uma s\u00e9rie de servi\u00e7os, que \u00e9 o grande  aspecto cidad\u00e3o de uma televis\u00e3o digital. O Ginga \u00e9 um software livre, aberto,  uma produ\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 devidamente certificada, e que foi inclusive  oferecido para os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e Central que optaram pelo padr\u00e3o  nipo-brasileiro, batizado ISDB-T, [Peru, Chile, Equador, Argentina, Venezuela e  Costa Rica].<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Ent\u00e3o, a principal caracter\u00edstica do SBTVD \u00e9 uma  caracter\u00edstica que vem de um software produzido aqui?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Exatamente. O que n\u00f3s temos do modelo do padr\u00e3o  japon\u00eas \u00e9 sua modula\u00e7\u00e3o. Agora, a forma com que se estruturam as redes, como n\u00f3s  vamos construir o canal de retorno, todos esses aspectos est\u00e3o contidos em  outras pol\u00edticas p\u00fablicas j\u00e1 vigentes ou a serem constru\u00eddas no Brasil.<\/p>\n<p>Se fizemos [sociedade civil] um alarde t\u00e3o grande, foi porque quer\u00edamos a  condi\u00e7\u00e3o de discutir o modelo, o sistema de televis\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 o padr\u00e3o.  Quer\u00edamos pensar a televis\u00e3o, sua rela\u00e7\u00e3o com a cultura e com a economia  brasileira enquanto um projeto de sociedade, para depois pensarmos a op\u00e7\u00e3o  tecnol\u00f3gica. Para isso, fizemos uma luta muito grande e n\u00e3o equivocadamente. [A  defini\u00e7\u00e3o de um sistema brasileiro de TV Digital foi alvo de intenso debate  entre a sociedade civil e o Estado. [<a href=\"https:\/\/www.fndc.org.br\/internas.php?p=listdocumentos&amp;categ_key=52\" target=\"_blank\">Acesse  aqui um rol de documentos armazenados pelo FNDC acerca do assunto<\/a>].<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o se pode desconsiderar que o padr\u00e3o japon\u00eas de modula\u00e7\u00e3o \u00e9  um dos melhores em mat\u00e9ria de tecnologia que tem no mundo.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; E o que abrange a modula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211; <\/strong>A modula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tecnologia que organiza o sinal  dentro do transmissor de televis\u00e3o. Isso inclui qualidade de imagem, resolu\u00e7\u00e3o  de linhas, compacta\u00e7\u00e3o do \u00e1udio. Todas essas caracter\u00edsticas est\u00e3o previstas  nessa modula\u00e7\u00e3o japonesa, que tem ainda a vantagem da portabilidade e da  mobilidade, ou seja, a televis\u00e3o pode \u201candar\u201d, pode ser recepcionada no celular  e tamb\u00e9m parte de uma grande qualidade de imagem.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas tamb\u00e9m est\u00e3o presentes no padr\u00e3o europeu [DVB &#8211; Digital  Video Broadcasting], no modelo norte-americano, mas de maneiras diferentes. O  padr\u00e3o europeu, por exemplo, n\u00e3o prioriza a mobilidade, porque tem que ter um  padr\u00e3o de televis\u00e3o para v\u00e1rios pa\u00edses muito pr\u00f3ximos. Ent\u00e3o a caracter\u00edstica da  mobilidade \u00e9 menor do que para um pa\u00eds de propor\u00e7\u00f5es continentais como \u00e9 o  Brasil.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Como est\u00e1 evoluindo a tecnologia da TV digital no Brasil? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> H\u00e1 v\u00e1rias frentes de evolu\u00e7\u00e3o. Uma delas passa  pelo desenvolvimento de software, que na televis\u00e3o a gente chama de middleware,  como j\u00e1 mencionei antes. Outra \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o no embarque [express\u00e3o que designa o  uso da tecnologia pelo sistema, que passa a \u201ccarreg\u00e1-lo\u201d] desse middleware. A  partir da especifica\u00e7\u00e3o, da norma publicada pela ABNT [Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de  Normas T\u00e9cnicas, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela normaliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica no pa\u00eds, fornecendo  a base necess\u00e1ria ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico brasileiro], as empresas que  produzem receptores de televis\u00e3o e as empresas que produzem os dispositivos de  r\u00e1dio, Ipods, celulares, podem incorporar o middleware \u00e0 sua tecnologia, seu  hardware. [<a href=\"https:\/\/www.forumsbtvd.org.br\/materias.asp?id=112\" target=\"_self\">Leia aqui  as normas da ABNT para a TV Digital<\/a>].<\/p>\n<p>A\u00ed tem outro n\u00edvel de desenvolvimento, um terceiro n\u00edvel, que \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o  \u2013 da porta da emissora para dentro \u2013 dessas caracter\u00edsticas do ISDB-T. \u00c9 o  padr\u00e3o nipo-brasileiro sendo utilizado pelas emissoras para produzir solu\u00e7\u00f5es  para a produ\u00e7\u00e3o de programas de TV, para transmitir no celular, para produzir  roteiros interativos.<\/p>\n<p>Cada vez que muda a tecnologia, ou o seu referencial, mudam os outros  processos na cadeia produtiva da televis\u00e3o. Dependendo de que fase est\u00e1 o  processo de produ\u00e7\u00e3o ou de uso da TV digital, ela vai se desdobrar em outras  a\u00e7\u00f5es, como modelo de neg\u00f3cios, investimentos, parceiros nacionais e  internacionais, isso tudo vai variar de um cen\u00e1rio para outro.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Na inform\u00e1tica, estamos acostumados com as coisas ficando  obsoletas rapidamente. Na televis\u00e3o, n\u00e3o estamos acostumados com isso. Como se  incorpora essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Vamos come\u00e7ar a viver na TV o que j\u00e1 vivemos na  inform\u00e1tica em geral. Quando se fala em TV digital com as novas tecnologias,  estamos falando em uma cultura inform\u00e1tica. Temos que ter antiv\u00edrus, guardar  arquivos. Como o middleware ser\u00e1 atualizado? Toda a cultura da TV est\u00e1 sendo  pensada para que se fa\u00e7a a atualiza\u00e7\u00e3o do middleware \u00e0 dist\u00e2ncia. A pr\u00f3pria  emissora de TV, quando roda seu carrossel de dados e manda para o receptor a  programa\u00e7\u00e3o, ela dispara um pacote de dados que \u00e9 compreendido por esse  middleware e faz a atualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande discuss\u00e3o pelo mundo entre os desenvolvedores desses sistemas,  de que nem o Jap\u00e3o conseguiu fazer ainda direito essa atualiza\u00e7\u00e3o e de que isso  \u00e9 muito complicado de ser realizado. Agora, h\u00e1 aqueles que dizem que o Ginga, um  software aberto, que j\u00e1 est\u00e1 sendo embarcado, prev\u00ea essa possibilidade de  atualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Quais s\u00e3o as outras oportunidades proporcionadas pela TV  digital?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211; <\/strong>Tem coisas importantes acontecendo. A promessa de  interatividade \u00e9 grande parte da gama de neg\u00f3cios. Outra coisa \u00e9 que o Brasil  \u201csacou\u201d uma coisa chamada ind\u00fastria cultural, definitivamente, enquanto pol\u00edtica  de Estado.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, para outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, representada pelo padr\u00e3o  brasileiro, n\u00e3o representa simplesmente uma mudan\u00e7a no modelo de televis\u00e3o  desses pa\u00edses, mas uma forte voca\u00e7\u00e3o de integra\u00e7\u00e3o cultural, de amplia\u00e7\u00e3o de  mercado, de pol\u00edtica de relacionamento multilateral. Eu acho que esse \u00e9 um  movimento riqu\u00edssimo deste governo federal, que agora tamb\u00e9m est\u00e1 flertando com  a \u00c1frica. Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tecnologia. O que vem depois \u00e9 a cultura, as nossas  produ\u00e7\u00f5es, nossas coopera\u00e7\u00f5es o desenvolvimento conjunto. De um outro modelo  mundial de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>De certa maneira, a quest\u00e3o tecnol\u00f3gica est\u00e1 bastante equacionada neste  momento. Saiu o primeiro middleware, acabou de sair o primeiro celular com o  Ginga embarcado. Daqui para frente, o povo da inform\u00e1tica vai continuar  trabalhando de acordo com a demanda que o pessoal da comunica\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o  de conte\u00fado vai continuar exigindo.<\/p>\n<p>Mas tem o outro lado, o lado da cultura. Na Argentina, por exemplo, que  adotou o padr\u00e3o nipo-brasileiro, a TV Digital virou pol\u00edtica de cultura de  Estado. \u00c9 um momento que ainda vamos viver, de escolha de modelo de produ\u00e7\u00e3o de  cultura, de exporta\u00e7\u00e3o, de coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma preocupa\u00e7\u00e3o recorrente na Argentina \u00e9 distribuir conte\u00fado por essa nova  plataforma para todo o pa\u00eds que fala castelhano na Am\u00e9rica do Sul. Eles est\u00e3o  enxergando isso enquanto pol\u00edtica de estado, rela\u00e7\u00f5es internacionais, enquanto  ind\u00fastrias criativas. A\u00ed \u00e9 importante ter uma plataforma tecnol\u00f3gica e um modelo  que possa \u201cconversar\u201d com o Mercosul.<\/p>\n<p>Quando a gente pensar que amanh\u00e3 tudo estar\u00e1 resolvido do ponto de vista da  tecnologia, da quest\u00e3o da internet com a televis\u00e3o, do conte\u00fado sob demanda, a  interatividade poder\u00e1 ser feita em coopera\u00e7\u00e3o entre esses pa\u00edses todos, em  termos de audiovisual.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Como casar a produ\u00e7\u00e3o de TV com arranjos produtivos  locais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Se n\u00e3o tivermos uma pol\u00edtica para desenvolvimento  de conte\u00fado em audiovisual (isso inclui as m\u00eddias convergentes), n\u00e3o h\u00e1 uma  for\u00e7a dessa produ\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o ocupa espa\u00e7o num dos mercados que mais cresce no  mundo, e, portanto, n\u00e3o faz ofensiva internacional.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando o Brasil leva sua plataforma para estes pa\u00edses, est\u00e1 acoplado a  isto, \u00e0 possibilidade de desenvolver uma pol\u00edtica de conte\u00fado. O governo  brasileiro tem a compreens\u00e3o quanto a isto. Em outras palavras, n\u00e3o \u00e9 a Rede  Globo que definir\u00e1 mais a cara do Brasil para o mundo.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Como est\u00e1 o Brasil em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211; <\/strong>Se fizermos a compara\u00e7\u00e3o com o Jap\u00e3o, sobre o  canal de retorno, eles est\u00e3o anos-luz \u00e0 frente, porque t\u00eam um operador nacional  de rede. Sempre tiveram. Do ponto de vista do desenvolvimento de conte\u00fados  locais, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, ela foi para frente e voltou. Num primeiro momento,  a Europa optou por uma solu\u00e7\u00e3o da iniciativa privada e depois recuou, porque  entendeu que o Estado tinha que fazer essa media\u00e7\u00e3o \u2013 a ponto de o governo  brit\u00e2nico distribuir receptor de televis\u00e3o, inclusive.<\/p>\n<p>No modelo americano, tem uma parte significativa da digitaliza\u00e7\u00e3o da TV que  pode ser cabeada \u2013 que passa pela TV por assinatura \u2013 ent\u00e3o, a introdu\u00e7\u00e3o da TV  digital l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 grande novidade e o padr\u00e3o deles privilegia outras coisas, como  a resolu\u00e7\u00e3o de imagens, por exemplo, que l\u00e1 j\u00e1 estava resolvida com a teelevis\u00e3o  a cabo. O modelo chin\u00eas ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Hoje, poucos pa\u00edses t\u00eam as solu\u00e7\u00f5es interativas que criam as condi\u00e7\u00f5es para a  converg\u00eancia digital da televis\u00e3o com as outras plataformas digitais. Esse \u00e9 o  imbr\u00f3glio dado para todo mundo. Estamos o tempo todo falando em televis\u00e3o  digital terrestre. Por exemplo, a BBC de Londres passou quase uma d\u00e9cada  discutindo se iria fazer televis\u00e3o digital terrestre ou IPTV [Internet Protocol  Television, ou a conectividade da TV com a internet]. E hoje h\u00e1 quem diga \u2013 e  isto est\u00e1 se alastrando pelo mundo inteiro &#8211; que a solu\u00e7\u00e3o para o audiovisual \u00e9  o IPTV, porque tem largura de banda [espa\u00e7o dispon\u00edvel para cada canal].<\/p>\n<p>N\u00e3o acho que seja t\u00e3o simples assim, at\u00e9 porque a cultura televisiva passa  por outros aspectos. Mas o grande problema, no mundo inteiro, s\u00e3o as duas  equa\u00e7\u00f5es: como resolver a interatividade e como resolver a converg\u00eancia com as  demais plataformas.<br \/>\nNeste sentido, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 atrasado, at\u00e9 porque  estamos buscando essas solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na Europa, por exemplo, tem pa\u00edses onde isso ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvido, ent\u00e3o  n\u00e3o d\u00e1 para dizer que a Europa est\u00e1 na frente. Os americanos tamb\u00e9m. Quando eles  adiaram v\u00e1rias vezes o apag\u00e3o do padr\u00e3o anal\u00f3gico, entre outras raz\u00f5es, foi  porque a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o via motivo para trocar a plataforma instalada para o  digital. Isso significa que o modelo de neg\u00f3cios n\u00e3o est\u00e1 resolvido. No Canad\u00e1,  por exemplo, o apag\u00e3o est\u00e1 previsto para 2011. Ent\u00e3o, est\u00e1 todo mundo mais ou  menos vivendo o mesmo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. A prioridade, neste per\u00edodo, \u00e9  resolver o problema da capacidade instalada \u2013 as pessoas n\u00e3o podem viver o  apag\u00e3o, tem que ter condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nem nos componentes, nem nos conte\u00fados, os sistemas de fomento audiovisual  v\u00e3o colocar muito dinheiro para pensar solu\u00e7\u00f5es que potencializem as vantagens  da digitaliza\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o se compreende quem \u00e9 que no pa\u00eds est\u00e1  recepcionando, quem \u00e9 que vai construir esse novo modelo de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; Quem recebe TV digital em casa no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> No final de 2009, haviam sido vendidos dois  milh\u00f5es de equipamentos que podem recepcionar TV digital, as pr\u00f3prias, ou o  set-top box [equipamento que se conecta a um televisor para transformar o sinal  em conte\u00fado, no formato que possa ser apresentado em uma tela]. Notadamente, nas  pra\u00e7as onde o sinal est\u00e1 dispon\u00edvel. A expectativa, com a Copa, \u00e9 que tenhamos  cinco milh\u00f5es de unidades vendidas em 2010. Esta \u00e9 uma estimativa do F\u00f3rum  SBTV-D. \u00c9 um n\u00famero significativo em mat\u00e9ria de capilaridade.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; O SBTVD vai representar a democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o no  pa\u00eds? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Depende da compreens\u00e3o que se tem da  democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea a compreende como o acesso \u00e0 m\u00eddia,  pouco. Se voc\u00ea entende a democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o como a possibilidade de  gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados plurais e diversos para a m\u00eddia, muito. Se voc\u00ea a entende  como a diversidade da propriedade, pouco. Ent\u00e3o, depende dos indicadores, das  caracter\u00edsticas. Em outras palavras, n\u00f3s nunca tivemos tanta oportunidade de  gerar conte\u00fado, e colocar esse conte\u00fado na plataforma de rede como n\u00f3s estamos  vivendo e vamos viver no futuro.<\/p>\n<p>Agora, quem organizar\u00e1 esse conte\u00fado? A din\u00e2mica de grade, que \u00e9 aquilo que  caracteriza uma emissora de televis\u00e3o, ser\u00e1 mantida? Por que a din\u00e2mica de grade  seria a cultura t\u00edpica da televis\u00e3o, mas a din\u00e2mica de grade \u00e9 uma grade, esse  nome diz tudo, ela \u00e9 um limitador.<\/p>\n<p>A\u00ed tem os cr\u00edticos que dizem: mas tem um atenuante disso que \u00e9 a  multiprograma\u00e7\u00e3o [transmiss\u00e3o de programa\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas de televis\u00e3o na  frequ\u00eancia designada para uma determinada emissora transmitir seu sinal,  digitalizado]. Mas a multiprograma\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do mesmo, ou a possibilidade de  outros players [mais empresas produzindo audiovisual] e outra gera\u00e7\u00e3o de  conte\u00fado? Eu n\u00e3o creio, por exemplo, que grandes emissoras como Globo, Record,  Bandeirantes, SBT ter\u00e3o players independentes da sua programa\u00e7\u00e3o. Mas haver\u00e1 uma  filosofia de audiovisual que se adapta.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; A digitaliza\u00e7\u00e3o da TV acabar\u00e1 com os \u201cdonos da m\u00eddia\u201d no  Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211; <\/strong>Depende. Se n\u00f3s experimentarmos uma mudan\u00e7a na  regula\u00e7\u00e3o, uma amplia\u00e7\u00e3o da multiprograma\u00e7\u00e3o para as TVs abertas, com a entrada  de novos players no mercado, pode significar uma reconfigura\u00e7\u00e3o da cadeia  produtiva e obviamente da propriedade da m\u00eddia no Brasil, especialmente a aberta  e comercial.<\/p>\n<p>Agora, a se jogar nas regras que est\u00e3o vigendo, n\u00f3s n\u00e3o vamos experimentar  uma diversifica\u00e7\u00e3o da propriedade da m\u00eddia televisiva aberta. Isto n\u00e3o vale  necessariamente, para o conte\u00fado. A possibilidade da converg\u00eancia est\u00e1  permitindo a entrada de novos atores na cadeia produtiva do audiovisual, mas  isso pode significar novos donos do conte\u00fado, n\u00e3o necessariamente novos donos da  m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>e-F\u00f3rum &#8211; O que acontecer\u00e1 com a televis\u00e3o anal\u00f3gica depois da  migra\u00e7\u00e3o completa para a TV digital?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juliano &#8211;<\/strong> Do ponto de vista tecnol\u00f3gico, vamos desligar os  transmissores dessas frequ\u00eancias e elas ser\u00e3o realocadas para o uso de outras  modalidades de telecomunica\u00e7\u00f5es no Brasil. Do ponto de vista do conte\u00fado, todo o  processo de produ\u00e7\u00e3o, de capta\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o ao longo da transi\u00e7\u00e3o (at\u00e9  2016), j\u00e1 est\u00e1 em curso, e j\u00e1 vai mudando a caracter\u00edstica da televis\u00e3o aberta.<br \/>\n<strong>Obs.: <\/strong>as notas explicativas s\u00e3o de autoria do  e-F\u00f3rum.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Sobre Juliano Maur\u00edcio de Carvalho:<br \/>\n<\/span>Coordenador do Programa de  P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Televis\u00e3o Digital: Informa\u00e7\u00e3o e Conhecimento (mestrado  profissional), docente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o Midi\u00e1tica  (mestrado acad\u00eamico) e do Curso de Jornalismo, l\u00edder do Lecotec (Laborat\u00f3rio de  Estudos em Comunica\u00e7\u00e3o, Tecnologia e Educa\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3) da Universidade Estadual  Paulista J\u00falio de Mesquita Filho (Unesp). Membro da Comiss\u00e3o Assessora da \u00c1rea  de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Inep-MEC. \u00c9 diretor do F\u00f3rum Nacional de Professores de  Jornalismo (FNPJ) e conselheiro do F\u00f3rum Nacional Pela Democratiza\u00e7\u00e3o da  Comunica\u00e7\u00e3o (FNDC). Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o Social (Unesp).<\/p>\n<p>Fonte: FNDC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A televis\u00e3o digital \u00e9 muito mais do que mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica ou ganho em imagem. Trata-se de um novo referencial que proporcionar\u00e1 a mobilidade, portabilidade, mas, especialmente, novos processos na cadeia produtiva audiovisual, como o modelo de neg\u00f3cios, investimentos, parcerias nacionais e &#8211; rompendo divisas &#8211; internacionais. 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