May 08

A PRIMEIRA EDIÇÃO DE 2016 DA REVISTA FAZ UMA SINGELA HOMENAGEM A UM DOS PESQUISADORES MAIS GENIAIS DA COMPUTAÇÃO NO BRASIL.

Luiz FernandoA área de Computação no Brasil evoluiu por diversos fatores, mas possivelmente o mais importante tem a ver com o trabalho apaixonado de profissionais que doaram sua energia, talento, conhecimento e tempo a pesquisa, desenvolvimento e inovação na área. E um profissional que exemplifica muito esse perfil foi o professor Luiz Fernando Gomes Soares, que infelizmente nos deixou prematuramente em 2015. LF, como era conhecido por amigos, colegas e alunos, imprimiu seu nome na história da Computação brasileira através de iniciativas que trouxeram grandes avanços não só para a área em si, mas para a sociedade como um todo. Foi sua dedicação e sabedoria que fez surgir no país, por exemplo, o padrão do Sistema Brasileiro de Televisão Digital que conhecemos hoje. Na PUC-Rio, LF também foi orientador de muitos profissionais hoje líderes na academia e indústria que mantêm o seu legado. A atuação de Luiz Fernando foi também fundamental em instituições como Capes e CNPq, e, claro, na nossa Sociedade Brasileira de Computação (SBC), da qual foi vice-presidente entre os anos de 1999 e 2003, e conselheiro entre 2003 e 2015. Nós, da SBC, somos muito orgulhosos por termos convivido com o professor Luiz Fernando, um profissional magnífico e uma pessoa ímpar e inspiradora.

Fonte: SBC

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Feb 02

André Barbosa Filho fala sobre as consequências sociais da transição da televisão brasileira para o sistema digital. Ele é conselheiro da Associação Brasileira de Emissoras Públicas no Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (Gired). Publicado na internet em 29/01/2016

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Jan 25

Em entrevista ao jornal Engenheiro, da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), Luiz Fernando Gomes Soares externou sua preocupação com pressão do mercado.

Semanas antes de morrer, o engenheiro eletricista Luiz Fernando Gomes Soares, professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e idealizador do Ginga, middleware que uniu tecnologia japonesa para TV digital com interatividade genuinamente brasileira, expressou preocupação com o lobby dos fabricantes dos conversores para a mídia digital, que há algum tempo vêm pressionando pelo barateamento do equipamento.

“As empresas pensam somente em ganhar dinheiro e fazem pressão para isso. Cabe ao governo ceder às pressões ou não. Para o fabricante do conversor, incluir o Ginga representa um custo. Assim, para garantir o mínimo de investimento, vão pressionar por um perfil mais simples”, declarou Gomes Soares em entrevista concedida, por Skype, ao Jornal Engenheiro, da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), em 27 de julho.

Já naquela ocasião, havia rumores de que a promessa de distribuir os conversores, digitais com o sistema Ginga integrado, às 14 milhões de famílias beneficiadas pelo programa social Bolsa Família, no desligamento da TV analógica (também conhecido como switch-off), estava ameaçada.

O Ginga é resultado de investimento público da ordem de R$ 60 milhões, envolvendo 1500 pesquisadores de todo o País, em diversas instituições de pesquisa, universidades e indústria. Atualmente, é adotado por 17 países da América Latina e da África. É ele que proporciona ao sistema de TV Digital brasileiro uma dinâmica de participação inédita, a partir da produção de vídeos e aplicações interativas, que são enviadas ao televisor do telespectador, com conteúdos não-lineares, possibilitando que o mesmo interaja com os conteúdos, a partir de uma conexão com a internet. É o que se chama de TV integrada broadcast/broadband (IBB-TV), onde a convergência da TV com a Internet se faz presente.

O único aplicativo desenvolvido até agora que prevê interação é o Brasil 4D, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que oferece serviços de governo eletrônico como marcação de consultas no Sistema Único de Saúde (SUS), acesso a benefícios do INSS e até serviços de busca de emprego. No entanto sem o Ginga, e sem conexão com a internet, apesar da interação remota garantida, haverá comprometimento do projeto Brasil 4D.

O impasse sobre a fabricação dos conversores digitais acabou gerando atraso no cronograma de desligamento da TV analógica, que vinha sendo anunciado para ter início em novembro de 2015. Na quarta-feira (20/1), o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (Gired), que coordena a transição da TV digital, decidiu, por consenso, adiar o cronograma de desligamento da TV analógica de 2018 para 2023.

Até 2018, somente grandes cidades onde há mercado de TV digital e de banda larga haverá o desligamento – isso inclui todo o estado de São Paulo e todo o Rio de Janeiro, além de uma parte dos estados do Rio Grande do Sul e do Paraná. De acordo com sites especializados do setor, ficou decidido que nessas cidades haverá mais distribuição do conversor de TV digital, com capacidade para receber os aplicativos do governo.

Cidades menos povoadas também serão desligadas até 2018, mas a lista completa só será decidida após análise da expansão efetiva da TV digital. Porém, a maior parte dos 5.600 municípios do País só terão sinal digital exclusivo em 2023. Também ficou acertado que neste ano somente Brasília terá sua TV analógica desligada. A nova proposta, implicará no engajamento de todo o governo, pois demandará novo decreto presidencial e novas portarias ministeriais.

No entanto, o ponto mais discordante, a mudança do Ginga, ficou para ser decidido em outra reunião ainda sem data anunciada. Já estava definido, entretanto, que os conversores não teriam moden integrado para acessar a internet. Ou seja, a população terá que adquirir no mercado.

Carta da sociedade civil
Um grupo de entidades ligadas à democratização das comunicações enviou, recentemente, uma carta à presidente Dilma Rousseff, em de para que seja revertida a decisão, anunciada pelo Gired, de distribuir conversores de TV digital sem a interatividade plena. Na carta, as organizações alertam que a decisão do grupo em oferecer um conversor apenas com zapper, com capacidade de recepção do sinal digital, “significa que mais da metade da população brasileira que não têm acesso à banda larga fixa nem móvel permanecerá excluída, sem acesso às tecnologias de comunicação e informação.”

De acordo com o documento, a distribuição de conversores diferentes para a população de baixa renda levará o País a um retrocesso e ampliação de divisões sociais: “Serão dois Brasis? Um que usufrui dos benefícios da inclusão digital e o outro, interiorano, pobre, desconectado, carente de acesso às políticas e serviços públicos?”. A carta é assinada por Nação Hip Hop Brasil, APG-UNB – Associação de pós graduandos da UNB, OLAICD – Escritório Sul (Observatório Latino-americano da Indústria de Conteúdos Digitais), Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Nova proposta
O superintendente executivo de relacionamento institucional da EBC, André Barbosa, apresentou alternativa intermediária de modelo de conversor para TV Digital com objetivo de tentar salvar a interatividade do sistema Ginga. A proposta foi apresentada em reunião do Gired, na quarta, sendo uma opção mais econômica para os fabricantes, que têm pressionado o governo a reduzir as especificidades do conversor.

Ele conversou com fabricantes e reconheceu que as especificações da caixinha aprovada pelo Gired – distribuída pelos beneficiários do Bolsa Família em Rio Verde, cidade escolhida para realizar o primeiro desligamento do sinal analógico em todo Brasil – ficou muito cara após a disparada do dólar, mas argumenta que o equipamento sem interatividade não atende aos objetivos do governo de levar seus programas e serviços por meio de aplicativos, que seriam acessados por meio da interatividade. A interatividade é especialmente demandada pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) que supervisiona as políticas públicas voltadas à população de baixa renda, registrada no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).

O superintendente da EBC explica que, com a alta do dólar, a ‘caixinha’ com o Ginga aprovada chegou ao preço de R$ 160, o que dificulta fechar as contas para os recursos destinados para a compra, em torno de R$ 1 bilhão dos R$ 3,6 bilhões pagos pelas teles, que compraram a frequência de 700 MHz, para a limpeza da faixa. O novo modelo proposto pela EBC, que vem com o que chama de “Ginga light”, ficaria em torno de R$ 100.

Barbosa alerta sobre uma a em análise no Gired, que prevê a distribuição da caixinha interativa aos integrantes do Bolsa Família somente para cidades com mais de 100 mil habitantes. Nas demais cidades, seria distribuído o conversor simples, com capacidade somente de receber áudio e vídeo.Ou seja, somente cerca de cinco milhões de unidades teriam interatividade, o que prejudicaria enormemente a maioria das famílias de baixa renda, que perderia a oportunidade de acesso à internet por meio desses aparelhos.

“Se não houver pressão dos produtores de conteúdo lançando aplicações interativas que demandem um ginga ágil e completo, e sem por outro lado, também não houver incentivo do Estado, vamos continuar com um interatividade pobre, como as apresentadas atualmente”, previu Luiz Fernando Soares, que morreu vítima de um infarto, no dia 8 de setembro de 2015, no Rio, onde morava – leia entrevista completa no jornal da FNE aqui; e saiba mais na página 4 da edição 478 do Jornal do Engenheiro aqui.

Fonte: CNTU

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Mar 26

Discutir a TV Digital, suas possibilidades e limitações, está na pauta do Seminário de Desenvolvimento de TV Digital Ginga-DF, que será realizado em 28 de março no auditório M da Universidade Católica de Brasília. Se você acha que existe um consenso sobre a TV Digital, saiba que a coisa não é bem assim. Conversamos com dois dos palestrantes que participarão do seminário, Cosette Castro e Valdecir Becker (conheça mais sobre eles aqui http://festivaltaguatinga.com.br/?p=449). Pelas respostas, é possível perceber diferentes pontos de vistas sobre o tema e ter uma ideia do quanto o assunto render. Quer participar do seminário? As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui no site (http://festivaltaguatinga.com.br/inscricoes/2014/seminario/oficina) até 27 de março.

Entrevista com Cosette Castro:

A TV Digital pode ser considerada revolucionária? Por que?
Tenho afirmado que a TVD é revolucionaria sempre e quando utilizar o Ginga, o middleware (camadas de software) brasileiro desenvolvido em código livre que permite a interatividade pela TV aberta. A possibilidade de que as audiências participem através do controle remoto podendo “dialogar” com as empresas de televisão (públicas e privadas), altera o status de audiência passiva que durante tanto tempo o público sofreu. Além disso, a TVD interativa colabora para a melhoria da qualidade de vida das populações de baixa renda, outro fator revolucionário quando se planeja um país igual pra todos.

Na sua visão, em quanto tempo o brasileiro estará acostumado a assistir, interagir e produzir (em escala considerável) para a TV Digital?
Rapidinho, como mostram as capacitações realizadas em João Pessoa (PB), em Ceilândia e Samambaia junto à populações de baixa renda. Se houvesse campanha nacional, as pessoas aprenderiam em um dia a utilizar a interatividade na TV aberta. Já a produção de conteúdos demora um pouco mais. Precisa de capacitação e essa capacitação demora em média uma semana, dependendo do público.

Sobre qual assunto que a senhora debaterá no Seminário?
Vou falar sobre a produção de conteúdos audiovisuais interativos como estratégia de desenvolvimento na América Latina. Esse foi o meu trabalho de pós-doutorado em 2011 e o atualizei. Analiso cinco países e como estão se preparando para sair da condição de compradores de conteúdos audiovisuais digitais pra se prepararem para serem produtores de conteúdos. Vou falar sobre os casos brasileiro, uruguaio, argentino e venezuelano.

Entrevista com Valdecir Becker:

A TV Digital pode ser considerada revolucionária? Por que?
Não. Ao contrário do que se imaginava há 10 anos, pouca coisa mudou com a TV digital. As emissoras continuam as mesmas, não houve mudança no modelo de negócio, a interatividade plena continua uma promessa. A única mudança que de fato aconteceu foi a melhora da qualidade do som e da imagem, o que não é pouca coisa, mas é insuficiente para consideramos a TV digital uma revolução.

Na sua visão, em quanto tempo o brasileiro estará acostumado a assistir, interagir e produzir (em escala considerável) para a TV Digital?
Assistir é um processo de aquisição da tecnologia. É paulatino e gradual. Creio que em cinco anos a maior parte da população tenha pelo menos uma TV digital em casa. Interagir depende da aceitação do público, porque a interatividade que as emissoras estão propondo ainda é pobre em termos de recursos ou mal feita em termos de implementação. Se continuar assim, não teremos interatividade na TV. Produzir, não vejo como. Trata-se de uma utopia achar que um cidadão não dono de emissora ou de produtora possa gerar algum conteúdo não esporádico para uma emissora de TV. Existem problemas tecnológicos e de modelo de negócios.

Sobre qual assunto que o senhor debaterá no Seminário?
Vou falar sobre tendências do audiovisual como um todo, pensando na evolução da TV digital. Isso inclui 4K, 3D, segunda tela, envolvimento do telespectador com o conteúdo, engajamento e uso das novas tecnologias audiovisuais para educação. Do ponto de vista da produção, não há mais separação entre TV, cinema e internet. As ferramentas e técnicas são as mesmas, o que muda é a forma como o espectador consome e usa o conteúdo. O amplo acesso a mídias digitais e o aumento da velocidade da internet está gerando um novo patamar de interatividade, onde o conteúdo é produzido a partir do espectador, e não simplesmente para ele, como acontecia com o cinema e a TV do século passado. Conteúdos over the top (OTT) e a segunda tela estão colocando em xeque o modelo tradicional de TV (e por extensão, do cinema).

Fonte: Festival Taguatinga de Cinema

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Jun 10

No gabinete do oitavo andar do Ministério das Comunicações, Paulo Bernardo guarda o plano de transição que vai mudar a forma como o Brasil vê televisão. Com a troca do sinal analógico para o digital programada para junho de 2016, o governo federal elabora ações para reduzir problemas. Em três anos, o sinal de TV aberta chegará só para quem tiver um aparelho digital, ou então para aqueles que adquirirem um conversor.

O ministro pretende desligar o atual sistema de forma gradual, de 2015 a 2018. Ainda prevê subsídios e financiamentos com juros mais baixos para a compra dos novos televisores. As duas ações constam no cronograma, apresentado à presidente Dilma Rousseff na quinta-feira. No mesmo dia, Bernardo recebeu Zero Hora e adiantou com exclusividade algumas ações. Confira trechos da entrevista.

Teste de desligamento

O cronograma de transição da TV digital inclui a escolha de cidades que passarão pelo “teste do desligamento prévio”, para identificar problemas que possam surgir. Santa Cruz do Sul está na lista de possibilidades do Ministério das Comunicações.

ZH – Com o encerramento das transmissões analógicas em 2016, a população corre o risco de ficar sem a TV aberta?
Paulo Bernardo – A TV digital hoje convive com a TV analógica. Os dois sinais estão sendo transmitidos. No entanto, a previsão é que no dia 30 de junho de 2016 o sinal analógico seja desligado. Ou seja, vai parar de transmitir o analógico e vai ter só TV digital. Então, quem não tiver aparelho digital não vai receber (sinal de) televisão.

ZH – O que será feito até lá?
Bernardo – Até lá, precisamos resolver duas coisas. Uma é acabar de completar a transmissão de televisão digital. E, depois disso, promover que as pessoas tenham TV digital em casa ou um conversor que receba o sinal digital e passe para uma TV analógica. O governo vai garantir financiamento com juros adequados. A pessoa vai ter tempo para trocar a televisão. Aí alguém poderá dizer “Ah, mas eu tô sem dinheiro!”. Mas nós faremos o juro diferenciado. Ou seja, o consumidor vai pagar com boas condições.

ZH – A lei prevê hoje que o encerramento do sinal analógico ocorra em única data em junho de 2016. O senhor pensa em mudar isso?
Bernardo – Sim. Em vez de fazer tudo em uma data, vamos começar em 2015 e ir promovendo o desligamento, a partir das capitais para o Interior, até 2018. Com isso, não geramos um estresse numa data única, e evita pressão sobre as empresas e sobre o telespectador por fazer tudo de uma vez só.

ZH – Então não há motivos para se preocupar?
Bernardo – Não queremos que ninguém fique sem a sua novela (risos). A ideia é fazer acordos com indústria e comércio. O governo garantirá financiamento para compra do aparelho ou do conversor. É para garantir que ninguém fique sem o aparelho, até porque televisão é a maior diversão do brasileiro. Se você desligar (o sinal analógico) e deixar parcela significativa da população fora é claro que vai ser ruim.

ZH – O senhor tem acompanhado as dificuldades para instalação de antenas de telefonia móvel em diversas cidades. Ao mesmo tempo, crescem as reclamações sobre o sinal de telefone. Como resolver isso?
Bernardo – O problema é que o celular é cada vez mais um item essencial para as pessoas. E agora elas querem telefone com internet. Então, nós precisamos ter serviço de qualidade, o que exige antenas. As cidades rejeitam as antenas por dois motivos: a poluição visual e porque tem gente que acha que a radiação faz mal.

ZH – A radiação não faz mal?
Bernardo – Há uns 12, 13 anos, havia muito essa discussão sobre prejuízos da radiação do celular para a saúde. Mas, depois disso, foram divulgados estudos, principalmente da OMS (Organização Mundial da Saúde), mostrando que a radiação do celular é muitas vezes menor do que a de um aparelho elétrico, um transformador, por exemplo. No site da Anatel há um sistema que permite digitar um endereço qualquer e saber quanto de radiação está sendo emitido pelos celulares ou pelas antenas na região.

ZH – E quanto à poluição visual?
Bernardo – Hoje, há antenas menores, com dimensões menores, e possibilidades tecnológicas que dão conta de resolver isso. Aqui em Brasília tem até antena disfarçada de coqueiro. São soluções que permitem melhorar a infraestrutura na cidade, sem agredir o visual. É claro que ninguém vai chegar lá na Usina do Gasômetro e espetar um monte de antenas porque a cidade não vai se conformar com isso. Ninguém quer acabar com a paisagem.

ZH – O senhor já disse que Porto Alegre tem uma das legislações mais restritivas à instalação de antenas. É preciso modificar a lei?
Bernardo – Com certeza. Já falei inclusive com o prefeito José Fortunati. Eu o conheço há muito tempo. Ponderei com ele que a legislação de Porto Alegre é difícil. Com a burocracia, leva-se de sete meses a um ano para conseguir decidir pela instalação de uma antena. Ou seja, por um lado, nós temos milhões de pessoas querendo tecnologia boa, com qualidade e com velocidade. E por outro, há uma resistência na lei. Precisamos compatibilizar.

ZH – Há projeto no Congresso para tornar mais clara a legislação sobre instalação de antenas. O senhor acredita que isto facilitará?
Bernardo – Tudo que é responsabilidade federal está pacificado, resolvido. A ressalva é que o município tem a prerrogativa de decidir sobre o uso do solo, de acordo com o plano diretor. Isso vai continuar sendo prerrogativa do município. Então, a saída para os municípios é o diálogo. Eu conversei com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, que já mudou a legislação. Podemos, por meio do diálogo, achar uma boa saída para a cidade e para a implantação das antenas, que nós precisamos.

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Feb 27

 

Site oficial Revista Set http://www.set.com.br/revistadaset/

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Sep 29

No Rio Info 2011, evento que discute negócios de TIC, no Rio de Janeiro, especialistas admitem que o Ginga, middleware de interatividade, desenvolvido no país, perdeu a chance de ser transformador dos negócios na TV aberta.

“Não adianta procurar culpados, mas é fato que o mercado Ginga não evoluiu como se esperava e devia no Brasil”, afirma Salustiano Fagundes, da HXD, desenvolvedora local de software, especializada em aplicativos para TV digital.

Para Fagundes, o middleware de interatividade na TV aberta será, agora, apenas mais uma tecnologia disponível. Mas isso não significa que o Ginga morreu. “Ele terá um futuro brilhante no IPTV e pode, sim, abrir frentes na TV digital”, sustenta.

Marcelo Moreno, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, e um dos articuladores da defesa do Ginga como padrão para o IPTV junto à União Internacional de Telecomunicações, concorda que faltam modelos de negócios por parte das radiodifusoras para o uso da interatividade.

“Hoje o ginga está sendo trabalhado para conteúdos próprios. Não é possível usar nenhum canal interativo para conteúdo que não seja da própria emissora. Isso retarda a oferta de novos negócios”, afirmou Moreno.

Com relação ao IPTV no Brasil – agora que as teles estão autorizadas a atuarem neste segmento – a maior preocupação é com a adoção de plataformas proprietárias. “O Ginga tem espaço porque ele harmoniza diferentes plataformas. O consumidor não quer saber se o conteúdo é broacast ou broadband. Ele quer acessar. E esse papel que queremos para o Ginga – harmonizar diferentes plataformas”, afirma.

O ponto forte do debate sobre TV digital e aplicações foi a constatação que o Ginga fará mais sucesso fora do que dentro do Brasil. “Parece que tecnologia nacional não tem muito espaço aqui dentro”, lamenta Moreno.

Fonte: FNDC

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Aug 25

Hoje é dia de ouvir luiz fernando gomes soares, o principal pesquisador por trás da especificação do padrão de interação do SBTVD, o sistema brasileiro de TV digital. a ideia da conversa surgiu a partir deste link, onde se diz que o SBTVD, lançado em 2007 [dezembro] tem até agora apenas 14 aplicações interativas comerciais. eu nunca vi promoção ou propaganda de nenhuma delas, não sei vocês. a isso, LF [como nosso entrevistado é conhecido no meio acadêmico] acrescenta que não existe nenhuma “narrativa interativa”, comercial, ou seja, o uso da capacidade de interação do SBTVD para construção de histórias interativas, uma das possibilidades mais interessantes –inclusive do ponto de vista educacional- do novo ambiente.

esta entrevista é um marco. LF fala pouco mas, desta vez, diz muito. conta a história do que rolou até agora nos bastidores da interação no SBTVD. seja lá qual for o futuro do padrão brasileiro de TV digital e de seus mecanismos de interação, LF dá um testemunho marcante, daqueles que entram para a história.

esta conversa rolou por emeio e, salvo os negritos e itálicos nas respostas, que são aqui mesmo do blog, as respostas de LF estão publicadas na íntegra. boa leitura.

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0. uma curta biografia: quem é você, em um parágrafo, quais são os principais links pra seu trabalho, onde você pode ser achado?…

Sou Professor Titular do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Fui presidente da área de computação na CAPES, membro do Conselho de Assessores de Ciência da Computação (CA-CC) do CNPq, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e atual membro de seu Conselho, e vice-presidente do Laboratório Nacional de Redes de Computadores (LARC). Fui representante da comunidade científica no Comitê Gestor da Internet no Brasil e membro do seu Conselho Administrativo. Fui o responsável pelo desenvolvimento do ambiente Ginga-NCL do Sistema Brasileiro de TV Digital e Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Sou o atual representante da academia no Módulo Técnico da Câmara Executiva do Fórum de TV Digital Brasileiro e de seu Conselho Deliberativo. Sou coeditor da Recomendação H.761 no ITU-T e Coordenador do GT de Middleware do Fórum SBTVD. Meu laboratório está neste link.

1. qual a história da interatividade no SBTVD até agora? quais foram os percalços da partida, da definição do padrão?

A história da linguagem NCL, e do middleware Ginga, começa em 1991, quando seu modelo de dados, chamado NCM (Nested Context Model), resolveu um problema em aberto na área de Sistemas Hipermídia. No ano de 1992, a solução encontrada foi incorporada ao padrão MHEG da ISO, que veio a se tornar o primeiro middleware para TV digital, sendo até hoje o middleware adotado no Reino Unido. Em 2005 submetemos a máquina de apresentação de aplicações NCL (o Ginga-NCL) como proposta para o SBTVD. Na época, o nome Ginga ainda não existia; na proposta se chamava MAESTRO. O Nome Ginga surgiu quando a proposta foi aceita como a única inovação, de fato, do SBTVD.

O início da definição do padrão, no entanto, não foi fácil. Muitos duvidavam que o Brasil pudesse ter feito uma tecnologia melhor da que a existente nos países ditos desenvolvidos. Cheguei a ouvir (em palestra na Câmara dos Deputados em Brasília) que o Brasil devia se preocupar com a exportação de frango e de laranja, e não com o desenvolvimento de tecnologia.

Tendo sido comprovada como a melhor tecnologia, tivemos, felizmente, apoio do Governo Federal na época, quando fui convidado a fazer o discurso de lançamento do SBTVD, cerimônia na qual o Presidente Lula e o ministro das Telecomunicações citaram o Ginga (passou a ser chamado assim poucos dias antes do lançamento oficial) como a grande conquista brasileira.

No entanto, ainda havia resistências no setor de radiodifusão e na indústria de recepção. Apenas quando pesquisadores europeus, japoneses e americanos começaram a elogiar a NCL como a melhor solução existente, salientando que finalmente se tinha uma solução tecnológica adequada para a TV digital, foi que a aceitação veio de fato. Ou seja, foi preciso sermos primeiro reconhecidos lá fora. Para se ter uma ideia, quem propôs a discussão de NCL e Ginga-NCL como Recomendação ITU-T não foi o Brasil, e sim o Japão.

2. quais foram os principais problemas do caminho, do lançamento do padrão em 2007 até agora?

O primeiro problema foi que diziam, em 2007, que não havia implementação comercial do Ginga-NCL e que o GEM (a parte imperativa escolhida, pela compatibilidade com o padrão Europeu) tinha problemas de royalties. Quanto a esse último ponto, ninguém atacava o Ginga-NCL, que incomodava justamente pelo contrário, por ser software livre e sem qualquer royalty. Ou seja, disponível para absolutamente todos.

Por não necessitar pagamento de royalties e por sua simplicidade, várias empresas de software foram criadas oferecendo a solução Ginga-NCL, ficando o primeiro problema resolvido. Foi então que alguns fabricantes perceberam que o Ginga-NCL fazia tudo o que o GEM fazia e melhor, de onde surgiu a proposta que se lançasse receptores só com o Ginga-NCL; o que chamaram de Ginga 1.0 na época. A ideia foi contestada pelos radiodifusores, que diziam que a presença do GEM era importante pela interoperabilidade com os outros padrões.

Em 2008, como já mencionei, a NCL e o Ginga-NCL foram propostos como Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Aprovada em abril de 2009, pela primeira vez na história das TICs o Brasil contribuiu com um padrão mundial, na íntegra. Um marco que a imprensa ignorou. Como fato curioso, um jornalista, muito renomado, que evito dizer o nome, até por vergonha, de um dos veículos mais lidos do Rio de Janeiro, ao ser apresentado ao fato, disse para seu repórter trazer uma notícia do Adriano (que acabava de ser contratado pelo Flamengo) em alguma balada, pois era isso que trazia leitores.

Vale ressaltar que até hoje o ambiente Ginga-NCL é o único ambiente de middleware padrão para todas as plataformas IPTV, TV a cabo, TV broadband (TV conectada) e TV terrestre (TV aberta). Mesmo dentro do SBTVD, é o único padrão para todas as plataformas (receptores fixos, móveis e portáteis).

Ainda em 2009, iniciou-se um movimento para substituição do GEM por uma nova solução da Sun, que seria incorporada como Ginga-J, a princípio, livre de royalties. O movimento cresceu e em uma reunião do Conselho Deliberativo do Fórum foi dada a decisão final. Na época, o Ginga-NCL já pertencia à comunidade de software livre, tendo recebido contribuições de mais de uma dezena de universidades e outras instituições; várias empresas foram também criadas sobre essa solução.

A academia, por quase unanimidade (com exceção apenas do LSITec da USP, entre as 17 instituições ligadas ao Fórum do SBTVD), votou por não adotar a nova solução, proposta pela Sun e apadrinhada pelos radiodifusores, uma vez que a NCL, com sua linguagem de script Lua, fazia absolutamente tudo o que fazia a nova solução e com vantagens. A perda da interoperabilidade (tão propalada) vinda pela não adoção do GEM, não justificava mais a presença do Java nas estações clientes.

Na época, a indústria de recepção concordava com a academia, mas, devido a um acordo feito nos bastidores, a academia ficou isolada e perdeu a votação por 12 a 1 (só os radiodifusores mais a indústria de recepção somam 8 votos no Fórum do SBTVD).

Com o imbróglio do Ginga-J resolvido, começaram as reclamações que não podia haver nenhum produto sem antes ter uma suíte de testes para o Ginga. Deve ser ressaltado, no entanto, que a suíte de testes para o Ginga-NCL existe e também já é hoje um projeto ITU-T. Mais ainda, pela primeira vez, uma Questão ITU-T endossou oficialmente um trabalho colaborativo por meio de serviços web para a concepção dessa suíte.

Nesse meio tempo, o padrão brasileiro foi adotado em mais 10 países latino-americanos e começa a ser adotado em alguns países da África, e tudo tendo a interatividade do Ginga como carro chefe. Mais ainda, alguns desses países, como é o caso da Argentina, resolveram começar só com o Ginga-NCL, o que deveria ter sido feito no Brasil, na opinião derrotada da academia.

É bom ressaltar, para melhor entendimento, que, para ser Ginga, obrigatoriamente deve-se ter o Ginga-NCL. Outras partes opcionais podem ser agregadas, como o Ginga-J (obrigatório apenas no caso do SBTVD para receptores fixos), ou outros serviços, como aqueles oferecidos pelas TVs conectadas.

3. na sua avaliação, qual é o atual estado de coisas? quais são as perspectivas de uso prático, em escala comercial, de interatividade no SBTVD? você acha que as emissoras “deixaram interatividade pra lá“, depois de ter conseguido vários de seus objetivos na transição do analógico para o digital, inclusive evitando a fragmentação do espectro para entrada de mais estações de TV?

Pois é, eu ainda não quero acreditar que as emissoras tinham apenas como objetivo impedir a entrada de mais estações de TV. Ainda sonho que haja algum compromisso público por parte daqueles que ganharam concessões públicas. Talvez seja apenas um sonho…. Mas não pensem que a academia foi ingênua.

O ideal da inclusão digital, da democratização não só do acesso à informação, mas também do processo de produção de conteúdo, nos levou ao projeto da NCL e sua linguagem de script Lua. Sabíamos da dificuldade da transmissão, a terceira perna do processo de democratização, mas contávamos com o sucesso da TV pública e, principalmente, com a entrada futura dos serviços de IPTV.

Não acho que as emissoras tenham deixado a interatividade para lá. Creio apenas que, por incompetência ou lentidão, não encontraram um modelo de negócio para a interatividade. O que as emissoras fazem hoje de interatividade é muito pobre. Não explora nem 10% do que o Ginga-NCL possibilita. A produção ainda está nas mãos de engenheiros, que são bons engenheiros, mas produtores de conteúdo sem qualquer criatividade. Ainda não deixaram a interatividade chegar às mãos de quem realmente poderia criar as aplicações “campeãs”.

Ainda se pensa na interatividade como widgets acoplados a programas da TV convencional. Nesse sentido, o Ginga acrescenta pouco a mais do que os serviços das TVs conectadas, em termos de desempenho e expressividade. Só ganha por ser padrão e de código aberto. Entretanto, isso é muito importante. O grande problema das TVs conectadas atuais é que cada fabricante adotou sua solução proprietária, desde a linguagem de desenvolvimento dos widgets até a distribuição por meio de sua própria loja. Mesmo que se queira padronizar uma dessas formas proprietárias, basta fazer uma ponte com a NCL. Mais uma vez, NCL é uma linguagem cola, que não substitui, mas agrega facilidades. Com NCL, os fabricantes de receptores ainda poderiam controlar a distribuição de widgets, ainda controlariam totalmente o negócio, mas com a vantagem adicional de permitir a quem cria o conteúdo escrever um único código para todas as plataformas. Hoje, como está, o código tem que ser portado de um fabricante para outro.

A interatividade, no entanto, é muito mais do que widgets. São narrativas interativas, aplicações de interatividade geradas ao vivo, exploração de múltiplos dispositivos de exibição, personalização de conteúdo, etc., tudo o que a NCL pode oferecer a mais para complementar o que existe nas TVs conectadas.

É bom repetir que NCL é uma linguagem de cola. Ela não substitui, mas complementa o que pode ser oferecido nas TVs conectadas. O Ginga-NCL pode conviver em completa harmonia com os serviços da TV conectada, agregando outros serviços, como os de IPTV e TV terrestre (VoD, Vídeos interativos ao vivo, narrativas interativas, etc.). Ginga-NCL é o ambiente escolhido pelo ITU-T para possibilitar essa interoperabilidade e convergência total, quando então pararemos de ficar classificando as TVs digitais pelos seus modelos de negócio (TVs broadband, TVs broadcast, WebTV, IPTV), mas a consideraremos apenas como TV digital, com todos os seus serviços oferecidos agregados.

É muito preocupante a situação de hoje. Quem vai desenvolver conteúdo interativo tem que usar N padrões diferentes nas N redes de distribuição disponíveis? NET, TVA, Telefônica, ViaEmbratel, Oi, Sky, SBTVD, Samsung, LG, Sony, Philips, TOTVS… Quem vai pagar pelo trabalho de portar o conteúdo interativo para as múltiplas plataformas?

A solução para isso é o que se persegue hoje nos órgãos de padronização e é nesse ponto que o Brasil está muito à frente e é invejado em todo o mundo, por ser o único local onde esse modelo pode começar já.

Infelizmente, a falta de conhecimento dos dirigentes de nossas “filiais” das indústrias de recepção e dos nossos radiodifusores os impedem de ver um futuro diferenciado para o país e para seus negócios.

4. o governo e os órgãos reguladores brasileiros poderiam ter feito mais por interatividade no SBTVD? mais do que? se tivessem feito, e o que deveriam ter feito, qual poderia ter sido o impacto?

O governo começou muito bem quando viu na TV digital não apenas um negócio para a indústria de recepção, que no país ainda não passa de montadoras, e para o setor de radiodifusão.

A inclusão social pelo acesso e geração de conteúdo, o fortalecimento das TVs Públicas, a criação de empresas, de software e outras, a geração de empregos de qualidade, tanto na área tecnológica quanto nas artes e cultura, foram o carro chefe inicial do SBTVD.

Foi com esse enfoque que a NCL foi projetada: uma linguagem simples e fácil de ser usada por não especialistas. Uma linguagem simples, a ponto de permitir receptores de baixo custo sem, no entanto, perder sua expressividade, sem limitar em nada a criatividade. Uma linguagem simples, mas muito mais expressiva do que todas as outras linguagens declarativas usadas em qualquer middleware para TV digital existente até os dias de hoje. Também com essa concepção, foram criadas as bibliotecas NCLua. Lua é hoje a linguagem mais usada no mundo na área de jogos e entretenimento, mas parte de nossa indústria de conteúdos parece ainda ignorar isso.

Ginga-NCL foi desenvolvido como software livre, e desse software mais de uma dezena de pequenas empresas foram criadas, empresas de médio a grande porte, e centenas ou talvez milhares de empregos de alto nível tecnológico.

Mas o governo parou nesse primeiro momento, perdendo as rédeas do processo, que passou para os radiodifusores e mais recentemente para a indústria de recepção.

Ao não incentivar set-top boxes com o Ginga-NCL (e no primeiro momento era só o que poderia ser feito, pois a discussão do Java permanecia) e deixar o aparecimento de “zappers” (set-top boxes sem interatividade Ginga); ao permitir que a indústria de recepção se concentrasse apenas nas classes A e B com suas TVs de alta definição com conversores embutidos, impediu o acesso das classes menos privilegiadas a essa nova tecnologia.

A TV Pública ainda está patinando, e o incentivo ao desenvolvimento de aplicações (narrativas) interativas esbarrou na falta de capacidade dessas emissoras (na verdade, as emissoras privadas também não têm tal conhecimento).

De fato, faltou uma política para geração e distribuição de conteúdo.

A academia vem fazendo sua parte, o Programa Ginga Brasil é mais um exemplo, formando produtores de conteúdo, apoiando e incentivando a criação de empregos e empresas (inclusive de grande porte), apoiando órgãos do governo, como DATAPREV e PRODERJ no desenvolvimento de conteúdos de inclusão social.

Entretanto, produzir para ser transmitido por quem? Sem essa perna de inclusão, as duas outras (acesso e produção de informação) não operam. Temos que operacionalizar a TV pública.

O Plano Nacional de Banda Larga traz nova esperança. É mais uma chance que temos de levar tudo adiante. Temos de ver o plano também como propiciador de serviços. E a TV digital é um dos mais importantes, principalmente no que tange à inclusão social. Temos de tratar a IPTV, Web TV, broadband e broadcast TV não como soluções antagônicas (porque não são nem no modelo de negócios), mas complementares. O Brasil lidera esse processo mundialmente, reconhecidamente, no ITU-T. Todos esperam e vigiam nossos movimentos. O Ginga-NCL é visto como a ferramenta de integração (e aí vai um recado para a indústria de recepção mal informada: ferramenta de integração e não de substituição de suas aplicações residentes, como as que conferem acesso a suas lojas de widgets).

Tomara que o governo retome as rédeas do processo.

Mas a sociedade civil não está parada. Através das TVs Comunitárias, TVs Universitárias, Pontos de Cultura e outros coletivos audiovisuais, ela não vai deixar a peteca cair. Quem viver verá. Não subestimem esse movimento.

5. você acha que a TV digital interativa aberta está perdendo espaço para interatividade via IP e padrões globais propostos por forças há tempos dominantes no mercado mundial, como mostrado neste link? pensando bem… era possível prever isso há uma ou meia década, nos estágios de discussão e desenho e, depois, de lançamento do SBTVD?

Tudo era previsível desde o início. A academia presente no processo nunca foi ingênua. O Brasil se destaca na pesquisa na área há mais de 20 anos. O que acontece é que tudo está sendo visto de forma errada. Felizmente, lá fora isso está mudando, basta ver os esforços do ITU-T nos vários eventos de interoperabilidade e também os esforços do W3C. Aliás, o último evento de interoperabilidade foi conjunto e no Brasil (…e a imprensa nem noticiou, não é?).

Mas vamos lá. Os radiodifusores europeus se basearam em uma tecnologia ruim, o MHP, que nunca pegou e nunca foi padrão. A Europa era uma bagunça com várias implementações não compatíveis. Com isso, e por falta de escalabilidade, fizeram pouca coisa de interessante (tirando o Reino Unido, que usava outro padrão, o já mencionado MHEG). Por falta de escala, não conseguiram definir um modelo de negócios. O Brasil, ou melhor, a América Latina, é vista como a grande chance de se ter um padrão de fato. Na PUC-Rio, somos constantemente assediados por consórcios europeus querendo fazer testes no Brasil, pois não se vê chance de executá-los em uma Europa fragmentada.

Enquanto isso, a indústria de recepção conseguiu encontrar seu “negócio de interatividade” através de lojas, proprietárias, de widgets. Nesse momento a TV broadband (ou TV Conectada) passou a chamar atenção.

Já os serviços de IPTV eram oferecidos sempre como proprietários, e corriam, e ainda correm, por fora dessa briga.

Acontece que tudo vai se unir, quer queiram quer não. É só uma questão de tempo. Forças retrógradas podem atrasar o processo, mas não vão pará-lo. Quanto mais cedo perceberem que as coisas são complementares, todos vão ganhar, os negócios e a inclusão social, que foi o motor do SBTVD.

A TV híbrida (como gostam de chamar os europeus) vai chegar. Aliás, mencionando os europeus, o principal fabricante do principal padrão híbrido lá proposto incorpora o Ginga-NCL interoperando com sua solução. Mais um exemplo…, soluções interoperando o Ginga-NCL e LIME (padrão japonês) já estão prontas nos fabricantes de set-top boxes híbridos. Note que sempre com o Ginga-NCL. Por que só nós brasileiros é que não vemos nosso potencial?

6. considerando uma penetração cada vez maior de conectividade móvel, por um lado, e TV a cabo, por outro, qual é, na sua opinião, o futuro do SBTVD? vê o futuro da interatividade, na TV digital, dentro do SBTVD, como uma opção economicamente viável? em que termos?…

Bem a resposta a essa pergunta resume todas as outras.

No SBTVD, o Ginga-NCL é o único ambiente obrigatório tanto para dispositivos fixos, quanto para os móveis e portáteis da TV terrestre. No ITU-T é o ambiente padronizado para serviços IPTV. O ITU-T também trata de widgets e, embora ainda não definitivamente aprovado, o Ginga-NCL é visto como a solução para interoperar com as várias soluções proprietárias existentes.

Partindo do pressuposto que todos os serviços são complementares, o middleware brasileiro (adotado hoje já em 13 países), ou pelo menos o Ginga-NCL, tem um enorme potencial de suporte global, e isso pode muito bem ser explorado.

O setor de radiodifusão deve procurar seu nicho. As emissoras precisam começar a fazer aplicações reais de TV interativa terrestre, e não só de widgets incorporados a seus programas. Isso eles podem até fazer também, e vender nas diversas lojas de fabricantes de receptores. Mas será que aí está seu negócio?

Que tal explorar as narrativas interativas, os programas ao vivo, como eventos esportivos com a interatividade (a aplicação) gerada ao vivo? Propagandas personalizadas com narrativas interativas (vejam que começam a aparecer várias muito interessantes no YouTube) são sensacionais…

A TV Pública também tem de ocupar o seu lugar. O conteúdo gerado pelos vários coletivos de audiovisual só vão encontrar nelas os seus transmissores (e hoje posso garantir que tais coletivos já têm uma interatividade muito, mas muito mais interessante do que a produzida nas grandes emissoras). Os serviços de IPTV (e WebTV) devem ser vistos como complementares, bem como os da TV conectadas. Assim teremos, de fato, uma solução invejável, e o SBTVD poderá ser visto como um todo (e a Argentina já está fazendo isso).

Temos dois problemas: será que o pessoal do setor de radiodifusão e da “nossa” indústria (montadora) de recepção vai conseguir enxergar tão longe e pensar um pouco também na sua missão para o país? Será que o governo vai reassumir as rédeas do processo e propor uma política para o setor e para o país, como é seu papel, ou vai deixar as coisas acontecerem ao acaso?

neste último parágrafo, LF deixa no ar a grande pergunta sobre o SBTVD: será que vamos ter uma política, de novo [como o brasil queria ter no começo…] para TV digital?

TV, desta vez, não era simplesmente definir como a imagem era montada e transmitida, e como deveriam ser os sistemas de codificação, transmissão, recepção, decodificação e apresentação. depois que tudo isso foi decidido, o país resolveu [?] inovar e incluiu um padrão para interação.

depois, como bem diz LF, o brasil “perdeu as rédeas do processo”. a dúvida, agora, é se há coesão e energia para dar direção e sentido a um esforço que vem, por mais que seus principais atores tentem, se arrastando há quase quatro anos e mostrando, como quase sempre, como é que se inova no brasil. ou, a bem dizer, como é que não se inova no brasil.

Fonte: Terra Magazine

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Jul 28

A TV digital poderá dar sua maior contribuição à sociedade brasileira na medida em que forem priorizadas a diversidade de canais e a interatividade – e percebidas a sua facilidade de uso e utilidade. Neste processo, a criação de um Operador Nacional Único de Rede de TV Pública é fundamental. Para o engenheiro Alexandre Freire da Silva Osorio, diretor de tecnologia da Frente Nacional pela Valorização das TVs do Campo Público (Frenavatec), na TV digital o telespectador torna-se usuário e as TVs públicas têm papel central no cenário de digitalização da transmissão. A seguir, a entrevista que o pesquisador concedeu ao e-Fórum:

Por que a TV digital não “deslancha” no Brasil?

Alexandre Osorio: Entendo que estamos nos atendo à TV digital terrestre, de sinal aberto. Essa é uma questão que possui várias componentes. Para essa análise, prefiro adotar o ponto de vista do usuário (termo mais apropriado que ‘telespectador’, em se tratando de TV digital interativa). Segundo um modelo denominado TAM (sigla em inglês para Modelo de Aceitação de Tecnologias), os fatores que condicionam a aceitação de uma nova tecnologia por uma pessoa podem ser divididos em duas categorias básicas, a saber, a facilidade de uso percebida e a utilidade percebida.

Entre os fatores que influenciam na percepção da facilidade de uso, encontram-se aqueles que dizem respeito aos dispositivos eletrônicos integrantes dessa nova tecnologia – e aqui quero me ater aos terminais de acesso, termo que dou preferência ao invés de caixas conversoras, por remeter à interatividade e assim contribuir para que a TV digital finalmente deixe de ser compreendida como uma mera conversão de sinais (de analógico para digital, em alta definição ou não).

É importante que os terminais de acesso, quer seja embutidos em aparelhos de TV ou externos, sejam acessíveis. Essa é uma condição básica, necessária apesar de insuficiente. Um impulso importante seria dado com ações de fomento à indústria e à inovação, com intuito de valorizar a tecnologia nacional para esses dispositivos, como de resto, para toda a cadeia de equipamentos ligados à TV digital.

De que forma esses terminais podem ser mais acessíveis?

Alexandre Osorio: Quando digo acessíveis, não estou me referindo apenas à questão do preço. E aí me remeto ao segundo conjunto de fatores de aceitação, ou seja, aqueles ligados à utilidade percebida da tecnologia: em nada adianta termos terminais de acesso disponíveis na loja mais próxima e a preços baixos, se não percebemos utilidade neles.

A programação da TV digital aberta hoje é basicamente a mesma da TV analógica. Tenho dúvidas da capacidade que a alta definição tem de aumentar a percepção de utilidade da TV digital. Quanto à mobilidade, ainda temos que testar sua aceitação.

Na minha opinião, a TV digital dará sua maior contribuição à sociedade brasileira na medida em que duas questões forem priorizadas: o aumento da diversidade de canais e a interatividade. Não é exagero falar que o aumento de diversidade de programação é uma necessidade, e não só porque a quantidade de canais de TV aberta não passa de uma meia dúzia.

Em primeiro lugar, podemos citar uma questão de mercado estratégica para o Brasil – serviços audiovisuais são hoje os de maior valor agregado no conjunto das mídias digitais, devendo movimentar cerca de 510 bilhões de dólares no mundo em 2011, com crescimento projetado de 4% ao ano, segundo dados da Ancine (Agência Nacional de Cinema). No entanto, o mercado brasileiro ainda é pequeno comparativamente ao potencial do país, representando, em faturamento, apenas cerca de 2% do mercado mundial, ainda segundo a Ancine.

Portanto, estamos falando da importância de investimento na produção audiovisual nacional e a TV é um meio importante de exibição.

Mas, para além da questão de mercado, existe uma outra, que eu creio ser ainda mais importante, por sua natureza sutil e profunda, e que tem a ver com o conceito do “direito ao espelho”, bem adaptado por Célio Turino [historiador, escritor, exsecretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura 2004/2010, idealizador do Programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura] para o contexto que eu gostaria de salientar aqui: A riquíssima diversidade cultural brasileira deve (porque quer) cada vez mais ter espaço para se manifestar e ser percebida. Talvez como reação ao processo de globalização, creio que o direito ao espelho esteja sendo cada vez mais valorizado na nossa sociedade e, quem sabe, no futuro seja até mesmo incorporado dentro do conjunto de direitos civis.

Em se tratando de conteúdos audiovisuais, podemos salientar a existência de um número cada vez maior de produtores independentes e regionais, entre os quais destaco TVs Comunitárias, TVs Universitárias, Pontos de Cultura com vocação para produção audiovisual e pequenas e médias produtoras. É importante destacar o papel central das TVs públicas no novo cenário de digitalização da transmissão, como pontas-de-lança desse processo de abertura: creio que o aumento da utilidade percebida pelo usuário, pelo exercício do direito ao espelho mediante acesso a uma maior diversidade de conteúdos, virá com investimento na expansão da TV pública.

E como é possível essa expansão da TV pública?

Alexandre Osorio: Um ponto central nesse processo é o atualíssimo debate sobre a criação de um Operador Nacional Único de Rede de TV Pública. Também não podemos nos esquecer que conteúdos de TV digital são multimídia e interativos. É importante a existência de programas de fomento à criação de conteúdos inovadores e de qualidade, tanto técnica, quanto estética.

O Programa Ginga Brasil tem dado um passo importante nesse sentido, ao capacitar Pontos de Cultura, TVs Comunitárias e outros produtores na linguagem NCL, usada na produção de conteúdos interativos para o middleware [programa que faz e mediação entre software e outras aplicações] brasileiro.

O investimento no contínuo aprimoramento das ferramentas de autoria de conteúdos também é muito importante. A combinação da riqueza cultural e da criatividade brasileira com o uso de ferramentas de software livre nas mãos de produtores capacitados pode criar um ambiente de inovação da linguagem televisiva talvez único no mundo.

Voltando aos fatores que influenciam a percepção de facilidade de uso da nova tecnologia, os conteúdos interativos produzidos devem possuir boa usabilidade, o que pode ser traduzido como facilidade de navegação pelo controle remoto, e ao mesmo tempo serem inteligíveis para seus usuários. Num país em que cerca de um terço da população é funcionalmente analfabeta, a inteligibilidade dos conteúdos é fundamental.

Esperava-se que a TV digital possibilitasse a inclusão digital. É possível?

Alexandre Osorio: A forte expansão em anos recentes da quantidade de conexões à internet e a existência de programas de incentivo à aquisição de computadores têm permitido um aumento exponencial na quantidade de brasileiros conectados. Com a perspectiva do PNBL, a expectativa é de uma expansão ainda maior. Talvez esse fenômeno, somado aos fatores que têm impedido o deslanche da TV digital terrestre e ao surgimento de novos dispositivos tais como a Web-TV, tenha contribuído para tirar a atenção da TV digital como ferramenta auxiliar no processo de inclusão digital. No entanto, muito ainda há por ser feito (somente 40% da população é usuária de internet, segundo o Cetic – Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação) e ainda acredito que a TV digital pode dar uma contribuição importante.

Novamente aqui a TV pública tem importância fundamental, uma vez que essa é uma questão que provavelmente não deve ser tratada com grande interesse pelas TVs privadas. A proposta inicial, lançada pela EBC [Empresa Brasi de Comunicação] no ano passado, de criação de um Operador Nacional de Rede Pública de TV Digital (RNTPD), destinava espaço exclusivo no espectro para aplicativos interativos, tais como os de governo eletrônico.

A criação de uma tal infraestrutura irá possibilitar a transmissão em larga escala de aplicativos de interesse público que, com boa inteligibilidade, poderão ser utilizados facilmente pelo controle remoto, uma forma mais familiar para quem não está acostumado com o uso de computador.

Creio que um primeiro passo a ser dado é a conscientização da sociedade sobre a importância do Brasil ter um Operador de Rede de TV Pública, não só para que a TV digital possa efetivamente cumprir com seu objetivo de promover a inclusão social (pela inclusão digital), mas também para que possa cumprir com outros objetivos listados no decreto 4.901/2003, que instituiu a TV digital no Brasil, tais como a democratização da informação, a criação de uma rede universal de educação à distância, o aperfeiçoamento do uso do espectro de radiofrequências, etc.

É viável o desenvolvimento da TV digital num cenário em que as teles – entrando no mercado de conteúdo audiovisual e na banda larga – ingressam com muito mais poder econômico?

Alexandre Osorio: O PNBL pode dar uma contribuição valiosa para instituir e consolidar o Operador Nacional de Rede de TV Pública, pela possibilidade de uso de sua rede de fibras ópticas e de rádios de alta capacidade para trafegar os conteúdos gerados pelos canais de TV até as estações de transmissão, além de dar suporte ao canal de retorno, necessário para as aplicações com interatividade plena.

A Telebrás tem demonstrado boa vontade com um possível casamento entre o PNBL e a RNTPD, o que é auspicioso. Este momento deve ser bem aproveitado para impulsionar as decisões que precisam ser tomadas sobre o operador de rede. Nesse sentido, tem sido bastante importante o envolvimento da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação nessa questão.

Fonte: FNDC

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Jul 29

A entrevista foi dada a jornalista Cristina De Luca do site IDGNOW.

Na conversa, o “pai do Ginga” (o professor Luiz Fernando Soares, da PUC-Rio) voltou a revelar alguma preocupação com a  necessidade de testes de conformidade  das implementações do middleware já existentes em relação às normas, para assegurar a compatibilidade das aplicações interativas com os produtos usados para rodá-las.  E também com fato de só uma empresa, até agora, ter desenvolvido uma implementação do Ginga completo.

Do ponto de vista da disseminação e consolidação do padrão brasileiro de interatividade, seria bom que outras também o fizessem.

Como já há algum tempo venho solicitando uma entrevista com o professor, ele autorizou a publicação da conversa aqui.

Como um dos criadores do middleware Ginga, como o senhor vê hoje o mercado?
Ao mesmo tempo feliz e preocupado, mas muito mais preocupado que feliz. Feliz por ver finalmente o middleware, tanto em dispositivos fixos quanto portáteis. Preocupado, pelo fato de só termos uma única implementação para fixos. Para os portáteis nós temos pelo menos a implementação do Ginga-NCL dos portáteis da LG, a dos portáteis da Nokia e a implementação de referência feita pela PUC-Rio. Já para os terminais fixos a versão completa com o Ginga-J, até onde eu conheça, só existe na implementação da TQTVD, rodando em plataformas de mais de um receptor. As outras implementações, encontradas em alguns set-top boxes, só oferecem o Ginga-NCL e, portanto, não são completas conforme o padrão brasileiro.

Por que essa situação, comum em segmentos novos de mercado, pode ser um risco?
Por que uma única implementação sem ter ainda os testes de conformidade do Ginga pode causar um estrago muito grande se não for conforme e, mesmo sendo, para o consumidor, é péssimo não haver concorrência. O governo deveria atentar pata esse fato em sua política industrial para TV digital.

As implementações do Ginga-NCL nos portáteis são conformes?
Não sei te dizer. A PUC-Rio não fez nenhuma análise em nenhuma implementação, seja para fixos ou para portáteis. Se formos chamados para fazer, faremos, desde que seja oficialmente pedido pelo governo ou algum órgão fiscalizador da sociedade.
Os portáteis me preocupam um pouco menos, porque só têm o Ginga-NCL, e para o Ginga-NCL temos mais de uma implementação comercial, como disse.

Já que tocamos no ponto de conformidade, muito se tem reclamado, nas várias listas de discussões e em blogs, sobre as implementações Ginga hoje no mercado, e também das aplicações transmitidas. Como o senhor vê a situação?
Como eu disse, nós da PUC-Rio não podemos afirmar se tem implementações de middlewares conformes ou não, pois não fizemos os testes.
Quanto às aplicações, nós temos feito testes sim, mas só para os próprios proprietários das aplicações que nos pedem para atestar que suas aplicações são conformes à Norma do Ginga-NCL. Não fazemos testes que não sejam pedidos pelos proprietários das aplicações. Podemos fazer sim, desde sejam oficialmente pedidos pelo governo ou algum órgão fiscalizador da sociedade.

Pelo que entendi de suas respostas, com um único fabricante no mercado de receptores para o Ginga completo pode-se correr o risco de todas as aplicações criadas se preocuparem em rodar apenas nele, estabelecendo um padrão de fato?
Se ele não estiver conforme, corremos sim, caso o governo ou algum órgão de defesa do consumidor não tomem providências, se for o caso. Isso pode sempre acontecer com qualquer produto com uma única implementação. Essa é uma das minhas preocupações com relação aos terminais fixos, além do fato de a não concorrência, no final, prejudicar aos consumidores.
Mas os instrumentos estão aí. Mesmo não se estando ainda prontas as normas para testes de conformidade do subsistema Ginga-J, as Normas do Ginga como um todo estão prontas e devem ser obedecidas. Verificar que um produto é conforme precisa da suíte de testes, mas verificar se não é conforme é bem mais fácil, basta falhar em um teste.
Aliás, é bom que se diga, não existe uma implementação garantidamente conforme; existe uma implementação conforme segundo uma determinada suíte de testes que deve, aos poucos, incorporar novos testes, ao se detectarem não conformidades.
Como não são completas, é bom que se tenha mais de uma suíte de testes também. Não gosto nem de imaginar: um único fabricante e uma única suíte de testes. Nem uma coisa nem outra; o governo e nós, a sociedade, temos a obrigação de zelar para que isso não aconteça. Se acontecer, e eu digo se, o governo será responsabilizado e nós também, além de pagarmos o preço como consumidores.

Mudando de assunto, como criador do Ginga-NCL, como o senhor vê a decisão Argentina de adotar só o Ginga-NCL e agora dizem que também a Bolívia?
Primeiro eu não vi em nenhum lugar oficial que a Argentina ou a Bolívia tenham adotado só o Ginga-NCL e acho que isso não é verdade.
O que a Argentina fez foi partir inicialmente só com o Ginga-NCL e foi uma atitude corretíssima e séria do governo Argentino, na minha opinião. Correta porque, visando a criação de empregos locais, a indústria local e o consumidor local, eles decidiram que enquanto não dominarem os processos do Ginga-J e não existir mais de um fornecedor da tecnologia no mercado, eles ficam apenas com o Ginga-NCL, que eles já dominam e, hoje, no mesmo nível, se não maior, que as empresas brasileiras, exatamente por terem tomado essa atitude correta. Isso não significa, entretanto, que eles estão parados e nem que não vão caminhar para o Ginga completo. Significa apenas que o farão com controle. Uma decisão correta que eu parabenizo o governo daquele país.

Mas no encontro em agosto o governo brasileiro vai tentar que eles mudem de posição..
Eu não acredito nisso. O que o governo brasileiro quer, no meu entender, é discutir uma processo de harmonização. Pode até ser, embora eu não creia que isso vá acontecer, que a harmonização seja, no fim, o Ginga-NCL.
Enfim, o que o governo brasileiro quer, no meu entender, é uma harmonização que pode acontecer no médio prazo, quando todos dominarem as tecnologias. Isso é o máximo que se pode querer sem ferir a autonomia dos países. O resto é desejo de empresas que querem dominar o mercado de forma geral e vêm na concorrência uma ameaça. Felizmente, por enquanto, isso não está prevalecendo. Começar só com o Ginga-NCL não deixa legado. Pior foi começar com o “zapper”, como fizemos.

Por falar nisso, como anda a padronização do Ginga-NCL no ITU-T?
Vai muito bem. Nossa vida internacional, por incrível que pareça, é muito mais fácil que a nacional, porque lá basta apenas mostrar nossa qualidade e nisso o Ginga-NCL é muito forte, e espero que continue evoluindo e que mantenha essa posição.
Recentemente a implementação da PUC-Rio foi reconhecida como a implementação de referência do ITU-T. Estamos correndo para melhorá-la ainda mais e torná-la ainda mais completa.
A suíte de testes do Ginga-NCL proposta pela PUC-Rio foi aprovada como Draft ITU-T ( note que ela existe no ITU-T), e a PUC-Rio foi encarregada de sua implementação, o que está fazendo coordenando os trabalhos que vêm sendo executados junto com outras empresas e órgãos de regulação, em âmbito internacional.

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