Jun 05

Carta do SouJava

A todos,

Transcorre atualmente no âmbito do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) uma nova discussão sobre as tecnologias que compõe o padrão do Ginga, software que permite o desenvolvimento, transmissão e execução de aplicações interativas na TV Digital.

As Normas do Ginga (http://www.forumsbtvd.org.br/materias.asp?id=112) publicadas em 6 volumes e 3 Guias Operacionais, sempre tiveram como escopo a união da tecnologia Java com o NCL-Lua. A flexibilidade de ter alternativas tecnológicas diversas foi uma das razões para se aprovar o Ginga com as duas tecnologias. O padrão brasileiro reúne assim o que de melhor há no mundo em termos de facilidade e usabilidade (o NCL-Lua, uma grande conquista da tecnologia originada no Brasil) integrado e harmonizado com a linguagem de programação mais usada no mundo e uma das mais maduras e reconhecidas no mercado internacional (o Java).

Todos nós da comunidade Java nos lembramos da época em que votamos na Consulta Pública tanto da norma do Ginga-J (ABNT 15606-4) como na do Java DTV (ABNT 15606-6) quando esta última tornou-se a especificação base para o Ginga-J. Esta consulta pública terminou em 05/04/2010, e a comunidade Java Brasileira demonstrou, através de uma votação expressiva, o seu interesse pelo assunto.

Nestes últimos 2 anos, depois destas normas votadas, aprovadas e publicadas, a comunidade Java participou ativamente da evolução desse novo mercado. Realizamos diversos eventos em todo o país, trazendo desenvolvedores para participar e investir no padrão. Empresas de software desenvolveram seus produtos e implementações do Ginga. Um grande número de aplicações foram e estão hoje sendo transmitidas pelos principais radiodifusores nacionais. Fizemos diversas intervenções junto a fornecedores para garantir que o desenvolvedor tivesse acesso aos ambientes de desenvolvimento. Organizamos listas de discussão, tutoriais, hackatons, cursos. Tudo isso para incentivar o uso das normas e a adoção da tecnologia Ginga-J.

Mesmo tendo sido debatida e aprovada em consulta pública em Outubro de 2011, uma longa e intensa batalha nos bastidores levou o governo a adiar por mais um ano a obrigatoriedade da presença do Ginga nos aparelhos (IDG Now!: Governo cede e Ginga só será obrigatório nos televisores digitais a partir de 2013).

Recentemente, no fim de Fevereiro/2012, o governo publicou um decreto para o PPB (Processo Produtivo Básico) que detalha as regras para os fabricantes de TVs LCDs/Plasma incluindo o Ginga completo (Ginga-J + Ginga-NCL) como requerimento oficial. Hoje, o texto do decreto do governo menciona explicitamente as Normas que tratam do Ginga-J, do Java DTV, assim como a do Ginga-NCL.

Entretanto, depois de tudo isso, atualmente transcorre dentro do âmbito do Fórum SBTVD uma nova iniciativa que visa mudar as regras do jogo, mudando todo o padrão Ginga e tornando a parte Java e o Ginga-J opcional. Isso efetivamente seria decretar a retirada definitiva do Ginga-J dos produtos e do Sistema Brasileiro de TV Digital.

Esta é a 2a. vez que tal debate principalmente sobre o uso do Ginga-J e do Java acontece. A primeira vez foi exatamente 2 anos atrás logo antes dessas Normas irem para Consulta Pública, quando o próprio Conselho Deliberativo do Fórum SBTVD votou de maneira quase unânime favoravelmente ao Java. Foram 12 votos a 1.

Hoje o Ginga-J é usado por várias emissoras líderes além de estar presente em diversos modelos de TVs fabricadas desde 2010. Já há mais de 3 milhões de TVs com Ginga completo (Ginga-J + Ginga-NCL) vendidas no mercado. Várias instituições como bancos, portais e empresas diversas investiram no Ginga-J. Grupos de usuários Java de todo o país promoveram atividades e capacitaram desenvolvedores. Universidades montaram grupos de estudo e até implementaram partes do padrão.

Assim, tornar opcional o Java no padrão brasileiro significaria a perda de um mercado em crescimento e desperdício de mão-de-obra especializada já formada e em formação nos vários cursos universitários, empresas e grupos de usuários no Brasil. Ademais, mudar as regras do jogo após ter o padrão já aprovado pelo país em uma consulta aberta e pública consistiria um prejuízo enorme para todos os que já investiram e a perda de um enorme potencial para as empresas, universidades e comunidade de desenvolvimento de software.

Cremos que é fundamental que se informe agora a esta mesma comunidade Java o que está acontecendo para poder se expressar claramente em relação ao uso de uma tecnologia que hoje tem mais de 100 mil desenvolvedores no Brasil.

O abaixo-assinado abaixo é uma maneira criada para permitir a comunidade se expressar em apoio ao Java e em repúdio a uma tentativa de virar as regras do jogo depois de 2 anos de investimentos em produtos Ginga, formação de recursos para o desenvolvimento de aplicações, cursos, eventos, palestras e divulgação geral.

Se você, desenvolvedor Java Brasileiro, concorda que a tecnologia Java, o Ginga-J, que você mesmo votou no passado para que fizesse parte do padrão de TV Digital Brasileiro, deva continuar a fazer parte do padrão, e deva ser de implantação obrigatória, ASSINE AGORA o abaixo assinado, e vamos mostrar para o Fórum SBTVD a nossa opinião.

Obrigado!

Equipe SouJava

Carta do Prof. Luiz Fernando em Resposta ao Abaixo Assinado

Ola,

Até o presente momento me abstive de manifestar sobre esse assunto em outras listas, por ter sido um dos  principais arquitetos do Ginga. Acontece que, como Conselheiro da SBC, não posso deixar de me manifestar nesta lista.

O problema do Ginga-J não é técnico.

Como li ontem em depoimento de um funcionário da Oracle, Ginga-NCL e Ginga-J não competem, e eu concordo inteiramente com ele. NCL e Lua fazem o mesmo que se pode fazer com Java, mas ter alternativas é sempre bem vindo …, caso isso não tenha outras implicações.

O problema aqui são essas implicações.

NCL e Lua são livres de royalty. Qualquer um pode fazer uma implementação das APIs do Ginga-NCL, se auto-certificar e não pagar NADA por elas.

Java não é livre de royalties. Uma implementação Ginga-J, não importa quem a desenvolveu, tem de passar pelo TDK da Oracle e pagar por isso, por licença distribuída. Isso significa capital do país sendo enviado para fora do país; e o montante é grande. São dezenas de milhões de receptores que se espera vender por ano.

Mais ainda, a certificação, ou seja, o direito de distribuição, é controlado por uma empresa. Isso fere o princípio de auto-certificação, que desde o princípio guiou o SBTVD. Por mais idônea e imparcial que seja uma empresa, é temeroso que um país permita que seu padrão seja controlado por ela.

Esses são os problemas que a comunidade tem de compreender e pensar bem antes de assinar um abaixo assinado.

Note que o problema não é técnico. Pode-se até citar que o Java exigiria uma máquina com mais recursos, mas isso, a meu ver, não é problema de grande importância. O seja, não se questiona o lado técnico.

Se a Oracle abdicasse dos royalties e tornasse o Java uma tecnologia de fato livre e permitisse a auto-certificação (ou a certificação feita por um órgão tipo o INMETRO), não haveria nenhum problema e não se estaria discutindo se deveríamos ter ou não o Ginga-J, além do Ginga-NCL, como uma extensão do Ginga.

Desculpem a longa mensagem, mas julguei ser minha obrigação trazer os esse fatos para conhecimento geral, para que tomem uma atitude com consciência.

Abraços,

Luiz Fernando
PUC-Rio / Depto. De Informática

Carta do Prof. Guido Lemos em Resposta ao Abaixo Assinado

Prezados Julian e Thiago,

Antes de escrever o que voces estao escrevendo recomendo que leiam as licencas das especificacoes das APIs Java e acompanhem o processo que envolve os direitos de uso dessas APIs entra a Google e a Oracle.

Eu sou o responsavel direto pelo uso de Java no Ginga. Recomendei o uso pelos motivos listados por voces em suas mensagens.
Na epoca eu nao entendia o modelo que disciplina o uso de tecnologia Java. O que me consola e que a Google tambem nao entendeu e se envolveu em uma disputa judicial que poderia resultar em um pagamento de 6 Bilhoes de dolares.

Agora que tenho uma visao mais clara do modelo, o que me incomoda profundamente e que o processo de licenciamento de uso das APIs e controlado por uma unica empresa.

Para que todos entendam o que motivou a rediscussao da obrigatoriedade do uso do Java e importante colocar um fato.

Ate o momento so uma empresa Brasileira conseguiu licenciar o uso de tecnologia Java em sua implementacao Ginga.

Essa discussao se iniciou porque outra empresa Brasileira,desenvouveu uma implementacao do Ginga, comercializou para um fabricante de TVs e o produto nao foi lancado porque nao foi possivel pagar para fazer as certificacoes no
Brasil. Para que o produto pudesse ser lancado foi necessario que a implementacao fosse certificada por uma empresa Chinesa que revendeu a implementacao feita pela empresa Brasileira para a fabricante de TVs.

Essa situacao me lembrou muito uma letra de Ze Geraldo que fala de um pedreiro nordestino que constroi uma escola onde os  filhos nao podem estudar !

Isso deixou varios conselheiros do Forum muito preocupados e este assunto colocou na agenda do conselho uma reavaliacao da pertinencia da obrigatoriedade do Java. A questao central e garantir tratamento nao discriminatorio para todas as
tecnologias de uso obrigatorio incluidas na norma. Mas, o que observamos na pratica foi que a Oracle tem o controle sobre o tempo de lancamento e sobre o preco das licencas.

Estamos tentando no Forum garantir tratamento nao discriminatorio mas, ate o momento nao conseguimos.

A solucao trivial e que depende exclusivamente de nos e retirar a obrigatoriedade do Java. A outra alternativa e a Oracle dar garantias e praticar um tratamento nao disciminatorio.

Sao estas as alternativas que estao sendo avaliadas.

Abracos,

Prof. Guido Lemos
LAVID – Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital UFPB – Universidade Federal da Paraíba

Se mesmo assim ainda tem interesse em assinar acesse http://soujava.org.br/servicos/abaixo-assinado-ginga-j/



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